DIREITOS HUMANOS EM XEQUE

Crescimento da ultradireita em Portugal coloca comunidades ciganas em alerta

DJ Jorge Syllvah apresenta-se em palco montado ao ar livre para a comunidade local.
DJ Jorge Syllvah durante apresentação no bairro de Padre Cruz, Lisboa.

O discurso de ódio político contra minorias gera insegurança, mas impulsiona a organização civil e a busca por representatividade democrática.

A crescente retórica xenófoba do partido Chega, liderado por André Ventura, transformou a comunidade cigana portuguesa no principal alvo de seu discurso político. A estratégia, iniciada em 2019, intensificou um clima de hostilidade pública que, segundo lideranças locais, extrapolou o campo das ideias e passou a afetar a dignidade e a segurança de indivíduos em espaços cotidianos, como restaurantes e ambientes digitais.

Neste sábado, 11/07/2026, a reflexão sobre este cenário ganha relevância ao se recordar a celebração do Dia Nacional da Pessoa Cigana, realizada em 24 de junho no bairro de Padre Cruz, em Lisboa. O local, batizado com nomes de rios portugueses como Rio Ave, Rio Tâmega e Rio Cávado, abriga cerca de 500 pessoas e tornou-se um símbolo de resistência cultural.

Bruno Oliveira, líder da Associação Intercultural Cigana, relata que o discurso da extrema direita legitimou o preconceito social. Entre as narrativas mais frequentes está a acusação de "subsidiodependência", termo usado por André Ventura para estigmatizar a comunidade. Ativistas como a atriz Maria Gil contestam essa visão, destacando que a marginalização econômica é fruto de um processo histórico de exclusão que empurrou as famílias dos centros das cidades, como o Porto, para guetos periféricos.

A resposta da comunidade tem sido institucional e baseada no direito. Uma vitória judicial relevante ocorreu quando a juíza Ana Barão determinou a retirada de cartazes do Chega durante uma campanha presidencial, por entender que o conteúdo visava causar um impacto negativo específico contra um grupo social. O advogado Ricardo Sá Fernandes, responsável pela ação, definiu o veredito a decisão como um marco pedagógico para a proteção da dignidade humana.

Enquanto a socióloga Maria Manuela Mendes, da Universidade de Lisboa, lidera estudos para atualizar o perfil desta comunidade, estimada em 60 mil pessoas em Portugal, os novos passos buscam a superação das barreiras históricas. Bruno Gonçalves, presidente da Letras Nômadas, sublinha que o acesso à educação superior é a arma atual contra o preconceito, embora a falta de representação formal nos partidos políticos ainda seja um obstáculo para a defesa plena desses direitos na Península Ibérica.

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