JUROS EM FOCO
Copom em xeque: Analistas apontam fiscal e inflação desancorada como desafios para o Banco Central
Com expectativa de corte tímido na Selic, economistas veem cenário desafiador para o BC brasileiro, impactado por política fiscal e pressões inflacionárias.
Apesar da expectativa de um corte tímido na taxa Selic de 0,25 ponto percentual, previsto para ocorrer nesta quarta-feira, o cenário macroeconômico brasileiro apresenta desafios que limitam a margem de manobra do Banco Central (BC). A decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) ocorre em um momento de divisão no mercado financeiro, com alguns analistas apostando no encerramento antecipado do ciclo de afrouxamento monetário.
Essa conjuntura foi diagnosticada por especialistas durante o evento “Oportunidades de Investimento no Brasil e no mundo”, promovido pela Inter Asset nesta terça-feira, 16 de junho de 2026. Eles apontaram uma "tempestade perfeita" de fatores, incluindo expectativas de inflação desancoradas, uma política fiscal expansionista e eventos climáticos extremos, que pressionam a economia nacional.
Alexandre Silvério, CEO e CIO da Tenax Capital, destacou a desancoragem da inflação, prevendo um Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) acima de 5% para o ano corrente. "Em 2027, as expectativas já estão desancoradas. Nenhum país consegue fazer o ambiente de negócio ser competitivo nesse patamar", alertou.
Gustavo Pessoa, sócio fundador da Legacy Capital, identificou uma "disputa" entre as políticas monetária e fiscal. Enquanto o BC busca a meta de 3% para a inflação, o governo parece mirar uma meta de 5%, segundo ele. Pessoa também citou os efeitos da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que modifica a escala 6x1, prevista para elevar os custos do setor produtivo e impactar a oferta de serviços. "Isso também desancora a expectativa de inflação", afirmou.
O Boletim Focus de segunda-feira, 15 de junho de 2026, já reflete essas preocupações, com um aumento nas projeções para o IPCA em 2026, agora estimado em 5,30%. A expectativa para a taxa Selic também foi elevada, com projeção de 13,75% para o ano, reduzindo o espaço para mais cortes de juros pelo Copom.
A pressão sobre o IPCA é acentuada pelo aumento nos preços de alimentos. Em maio, o grupo de alimentos registrou a maior alta para o mês em 18 anos, enquanto o próprio IPCA teve a maior taxa para maio desde 2021. A expectativa é de piora com o fenômeno El Niño, que pode prejudicar a produção de itens in natura, como frutas e legumes.
O dilema da política monetária não se restringe ao Brasil. O Federal Reserve (Fed) dos Estados Unidos também enfrenta desafios, com a tensão no Oriente Médio e uma atividade econômica aquecida. Ian Lima, gestor de portfólio de renda fixa na Inter Asset, apontou o alto nível de investimentos em inteligência artificial (IA) e data centers como fator de pressão de preços nos EUA. Gustavo Pessoa reforçou a análise, indicando que a IA já representa cerca de 1% da inflação americana. O mercado prevê que o Fed mantenha a taxa de juros inalterada.
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