SAÚDE EM ALERTA

Consumo de álcool dispara internações e mortes por doenças do fígado no Brasil

Homem servindo cerveja em copo, simbolizando o consumo de álcool e seus riscos à saúde.
O aumento das doenças hepáticas relacionadas ao álcool acende um alerta para a saúde pública no Brasil.

Estudo da UFMG revela aumento dramático de 2000 a 2022, com impacto devastador em regiões vulneráveis e perfis específicos da população.

A Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) revelou nesta terça-feira, 12 de maio de 2026, um alarmante aumento nas internações e mortes por doenças hepáticas associadas ao consumo de álcool no Brasil entre os anos de 2000 e 2022. Pesquisadores da instituição, ao analisarem dados do Sistema Único de Saúde (SUS), identificaram um crescimento mais acelerado nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste, apontando para um impacto devastador na saúde pública e exigindo atenção urgente das autoridades e da sociedade.

A pesquisa abrangeu casos de hepatite alcoólica, esteatose hepática relacionada ao álcool, fibrose e cirrose hepática. No período analisado, o País registrou um total de 344.039 internações e 214.642 mortes diretamente ligadas às doenças do fígado provocadas pelo consumo excessivo de bebidas alcoólicas. Esses números sombrios representam a dimensão do problema de saúde pública que avança silenciosamente.

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Nacionalmente, a taxa média de internações atingiu 7,8 casos por 100 mil habitantes, enquanto a mortalidade alcançou uma média de 4,9 óbitos por 100 mil habitantes. A tragédia se aprofunda quando se observam as disparidades regionais: o Norte apresentou o maior crescimento proporcional das internações, com um aumento de 65,7% na série histórica, seguido pelo Nordeste, com 54% de avanço.

Em relação à mortalidade, o Sul liderou o aumento percentual de óbitos, registrando um crescimento de 5,6 por cem mil habitantes, enquanto o Nordeste alcançou 4,9 mortes por cem mil habitantes. Os especialistas da UFMG destacam que o perfil mais afetado é majoritariamente composto por homens de meia-idade, pessoas negras e indivíduos com menor escolaridade, evidenciando a concentração dos casos em regiões economicamente mais vulneráveis do Brasil.

A hepatologista Geisa Gomide, professora e coordenadora do departamento clínico da UFMG, expressou profunda preocupação. “É aumento real, melhora no diagnóstico ou sistemas de informação mais bem alimentados?”, questionou, sublinhando que o crescimento anual das mortes acima da média mundial acende um alerta sobre a gravidade da situação. A especialista sugere que o cenário pode estar ligado tanto à ampliação da identificação dos casos quanto ao aumento do consumo abusivo de álcool na população.

Corroborando a análise, o hepatologista José de Carvalho Filho, professor-adjunto da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), afirmou que o alcoolismo permanece frequentemente negligenciado pela sociedade. “O Brasil não bebe necessariamente mais do que a média mundial, mas quem bebe, bebe muito. O consumo episódico excessivo é muito frequente”, explicou, revelando que cerca de 15% da população brasileira apresenta um padrão de consumo abusivo.

Carvalho Filho apontou para um forte lobby da indústria de bebidas que contribui para a aceitação social do álcool, dificultando o reconhecimento da gravidade. O estudo também escancarou desigualdades importantes no acesso aos serviços de saúde. Para Geisa Gomide, fatores sociais e regionais são cruciais para entender o aumento nas regiões Norte e Nordeste, onde a melhoria recente na notificação e no diagnóstico pode ter exposto uma realidade até então subestimada.

A doença hepática associada ao álcool, conforme os pesquisadores, evolui muitas vezes de forma silenciosa por anos, com sintomas que só se manifestam em estágios avançados. Entre os homens, a maior concentração de mortes ocorre entre 40 e 59 anos. Já entre as mulheres, mesmo com menor incidência, os danos hepáticos podem se desenvolver mais rapidamente, inclusive com quantidades menores de álcool, alertam os especialistas.

Dados regionais do estudo reforçam o impacto dos fatores sociais e econômicos. No Norte, Nordeste e Centro-Oeste, pessoas pretas e pardas predominam entre os casos e óbitos, alinhando-se à vulnerabilidade socioeconômica. No Sul e Sudeste, a maioria dos pacientes registrados é branca, refletindo o perfil demográfico dessas regiões.

De acordo com José de Carvalho Filho, aproximadamente 90% das pessoas que desenvolvem gordura no fígado devido ao álcool podem progredir para quadros mais graves se o consumo persistir. “Quando o paciente interna, geralmente já é muito grave”, complementou Geisa Gomide, enfatizando que a principal forma de prevenção é a redução ou interrupção do consumo de álcool.

Gomide também ressaltou o preconceito e a demora no tratamento: “O paciente com dependência alcoólica ainda é visto como alguém sem força de vontade, quando na verdade estamos falando de uma dependência química.” Os especialistas são categóricos: o alcoolismo é uma doença que exige acompanhamento médico, psicológico e social, incluindo controle da dependência, mudanças alimentares, monitoramento clínico contínuo e, em casos extremos, transplante hepático.

O impacto da doença é global, com o problema respondendo por cerca de 65% dos casos de cirrose hepática em diversos países. A história de Luiz Cláudio da Silva Cardoso, de 57 anos, entrevistado na pesquisa, ilustra a tragédia pessoal: “Eu comecei a beber muito cedo, aos 14 anos, e desde então já sofri muitas perdas devido ao alcoolismo. A maior delas foi perder o amor pelos filhos e a minha mulher.” Apesar das recaídas, ele persevera no tratamento, um testemunho da luta diária contra essa dependência.

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