FACÇÕES EM CONFLITO
Comando Vermelho (CV) expande atuação e Sindicato do Crime (SDC) enfraquece no RN, revela promotor
Relatórios do Ministério Público do Rio Grande do Norte (MPRN) indicam migração de membros do SDC para o CV. Promotor Sílvio Brito prevê enfraquecimento do SDC em até cinco anos e alerta para complexidade do combate ao CV.
O Ministério Público do Rio Grande do Norte (MPRN) identificou um avanço territorial significativo do Comando Vermelho (CV) no Estado. Paralelamente, o Sindicato do Crime (SDC), organização criminosa que surgiu após a rebelião no Presídio Estadual de Alcaçuz em 2017, enfrenta um processo de enfraquecimento. A tendência, segundo o promotor de Justiça Sílvio Brito, da Promotoria de Justiça de Delitos de Organizações Criminosas, é de que integrantes do SDC migrem para o CV, potencialmente levando ao desaparecimento do SDC nos próximos anos. A análise foi divulgada em entrevista à TV Tropical.
“Cada vez tem mais elementos passando para o Comando Vermelho. E uma tendência de que essa facção domine o Rio Grande do Norte e, ao mesmo tempo, leve ao desaparecimento do Sindicato do Crime”, afirmou o promotor.
Sílvio Brito explicou que o Comando Vermelho evoluiu de um aliado de facções regionais para um grupo que busca o controle direto de territórios. Essa mudança estratégica, observada nos últimos cinco a seis anos, alinha o CV a outras organizações transnacionais, como o PCC, que atuam em rotas internacionais de tráfico de drogas.
“Ele era parceiro do Sindicato do Crime aqui no Rio Grande do Norte e de outras facções regionais, locais, em outros estados. Mas de uns 5, 6 anos para cá ele foi ganhando muita envergadura e ele tem deixado de ser parceiro para querer ele próprio dominar aquele território. O Comando Vermelho, a exemplo do PCC, é uma organização hoje transnacional.”
O promotor detalhou a atuação da facção em rotas que trazem entorpecentes de países andinos como Colômbia, Peru e Bolívia, e que também escoam drogas para Europa, Oriente e Estados Unidos.
O fortalecimento do CV no Rio Grande do Norte está associado ao acesso privilegiado às rotas internacionais de tráfico, à aquisição de armamentos de uso restrito e à estrutura consolidada em áreas sob seu domínio. Essas vantagens contribuem para a manutenção de seu poder.
Conflitos entre facções
O avanço do Comando Vermelho ocorre em meio a uma disputa acirrada com o Sindicato do Crime no Estado. O promotor Sílvio Brito prevê um aumento nos confrontos entre criminosos e, potencialmente, entre estes e as forças policiais. Essa escalada da violência tem suas raízes no massacre de Alcaçuz, há quase uma década, que resultou na morte de pelo menos 27 pessoas. Desde então, o Rio Grande do Norte tem sido palco de ataques, como incêndios de ônibus, e confrontos em diversas regiões, especialmente na Região Metropolitana de Natal e em municípios como São José de Mipibu.
Em São José de Mipibu, por exemplo, foram registradas oito mortes em janeiro de 2026, elevando o total para 17 homicídios até maio. Essa escalada da violência reflete a disputa territorial entre as organizações criminosas.
Enfraquecimento iminente do SDC
A perda contínua de integrantes e territórios para o Comando Vermelho deve acelerar o declínio do Sindicato do Crime. Sílvio Brito estima que, em um período de três a cinco anos, o SDC possa se tornar irrelevante devido ao alto volume de deserções.
Contudo, o promotor alerta que a extinção do SDC não significa uma melhora automática na segurança pública. A consolidação do Comando Vermelho como força dominante pode, na verdade, tornar o combate ao crime ainda mais desafiador. Isso ocorre porque as principais lideranças, fontes de financiamento e depósitos de armamento do CV estão localizadas fora do Rio Grande do Norte, dificultando o alcance das autoridades locais.
“O combate se torna ainda mais difícil porque as suas lideranças, as suas principais fontes de custeio, os seus paióis de armamento e munição estão fora do Rio Grande do Norte, fora do alcance das nossas autoridades. E, para a gente, traz uma perspectiva ainda mais desalentadora em relação ao enfrentamento ao crime.”
Além do tráfico de drogas, as organizações criminosas exercem controle sobre a economia local em bairros e comunidades, cobrando taxas de trabalhadores. Essa cobrança, que começa com valores baixos, pode escalar rapidamente, forçando empreendedores a abandonarem suas atividades ou a enfrentarem retaliações violentas.
Estratégias de combate
O Governo do Rio Grande do Norte, em conjunto com o Ministério da Justiça, implementa estratégias como a Operação Território Seguro, que combina inteligência e patrulhamento ostensivo. Outra frente de atuação é o bloqueio e a apreensão de recursos financeiros oriundos de atividades criminosas.
Para Sílvio Brito, o enfraquecimento financeiro das facções é uma das ferramentas mais eficazes de combate. A entrada de vultosos recursos financeiros impulsiona o poder de fogo, a capacidade de aquisição de armas, a corrupção de autoridades e a obtenção de benefícios no sistema prisional e jurídico.
“Asfixiar financeiramente é, sem dúvida, uma das principais formas de enfraquecer essas facções e permitir que o trabalho de rua, o trabalho policial de enfrentamento, seja mais efetivo, porque você enfrenta um inimigo mais enfraquecido, vamos dizer assim.”
Gostou desta notícia?
Entre no nosso grupo do WhatsApp!
Receba as principais notícias em primeira mão, direto no seu celular. É grátis!
📲 Quero entrar no grupo
Comentários (0)
Deixe seu comentário