DIPLOMACIA EM CAMPO
Com tensões políticas, torcedores canadenses lamentam sediar a Copa do Mundo com os Estados Unidos
Apesar da festa nacional, a organização conjunta do Mundial com os EUA é ofuscada por declarações de Donald Trump e tarifas comerciais, gerando descontentamento entre os canadenses.
Torcedores canadenses vestiam as cores do país e rostos pintados com a folha de bordo para celebrar a seleção nacional na Copa do Mundo. No entanto, a ideia de dividir a organização do torneio com os Estados Unidos perdeu parte do encanto diante das recentes tensões políticas entre as nações. A decisão de sediar conjuntamente o Mundial, aprovada em 2018, agora é vista com ressalvas por muitos que se sentem afetados pela retórica do presidente americano Donald Trump.
Donald Trump voltou a ameaçar transformar o Canadá no 51º estado americano e questionou a renovação do acordo comercial entre EUA, Canadá e México, as três nações que recebem a edição deste ano do Mundial. Essas declarações, somadas à imposição de tarifas sobre aço, alumínio e automóveis canadenses, e a comentários depreciativos sobre o primeiro-ministro Mark Carney, geraram um sentimento de desapreço e levaram muitos canadenses a boicotar produtos americanos e cancelar viagens ao país vizinho. Para Catherine Paternal, de 44 anos, torcedora de Mississauga, "A Copa do Mundo é sobre unir países. Não sinto que os Estados Unidos sejam um bom exemplo disso neste momento."
Entre os torcedores ouvidos pela Reuters, a maioria afirmou que não pretende deixar as diferenças políticas de lado durante a competição. "De jeito nenhum", respondeu Linda Anson, 68 anos, ao ser questionada se viajaria aos Estados Unidos para acompanhar partidas, citando as declarações de Trump como principal motivo. Seu marido, Bruce, complementou: "Somos uma nação soberana."
Liam Delaney, que foi direto do trabalho ao estádio em Toronto para acompanhar a estreia do Canadá contra a Bósnia e Herzegovina, também criticou o impacto das declarações americanas. "Acho que ele está prejudicando o futebol na América do Norte. Ele está fazendo a gente parecer muito mal", afirmou. Pesquisas recentes confirmam o sentimento: 80% dos canadenses acreditam que os Estados Unidos estão seguindo na direção errada, e 53% consideram que o boicote a produtos e viagens aos EUA fortaleceu a posição do Canadá nas negociações.
Mauricio Gonzalez, canadense de origem mexicana, propõe uma visão diferente, defendendo que as tensões sejam deixadas de lado durante o torneio. "Deixem isso de lado... aproveitem o futebol por um mês e depois retomem tudo", disse. Oficialmente, o Canadá afirma que a preparação conjunta com Estados Unidos e México tem sido positiva e que os três países trabalham em parceria para garantir o sucesso da Copa, um evento que exige coordenação entre autoridades e a FIFA.
A torcedora Catherine Thomas, de Oshawa, relembrou uma época em que Canadá e Estados Unidos eram vistos como aliados próximos. "Quando começamos esse projeto da Copa, os EUA e o Canadá ainda eram amigos. Não sinto mais isso em relação aos Estados Unidos", afirmou. A situação se estendeu ao ex-primeiro-ministro Justin Trudeau, que virou alvo de críticas após assistir à abertura da Copa nos Estados Unidos em vez da estreia canadense em casa, sendo visto ao lado da cantora Katy Perry. Trudeau comentou nas redes sociais: "Às vezes, os deveres de namorado chamam. Mas vocês sabem por quem estou torcendo para levantar a taça."
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