DECISÃO DOS EUA

Classificação de PCC e CV como terroristas pode prejudicar Flávio Bolsonaro, diz professor

Professor Dawisson Belém Lopes, especialista em política internacional.
Professor Dawisson Belém Lopes, da UFMG.

Professor da UFMG avalia que medida, anunciada após encontros de Flávio Bolsonaro com Donald Trump, pode gerar sanções a aliados do senador e prejudicar sua imagem.

{"blocks":[{"type":"paragraph","data":{"text":"A recente classificação do Comando Vermelho (CV) e do Primeiro Comando da Capital (PCC) como organizações terroristas pelos Estados Unidos, anunciada em 29/05/2026, levanta questionamentos sobre seus reais impactos no cenário político brasileiro. O Professor Dawisson Belém Lopes, especialista em política internacional e comparada da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), avalia que a decisão, tomada após encontros do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) com Donald Trump, pode gerar efeitos adversos para o próprio pré-candidato à Presidência. Lopes pondera que ainda é prematuro definir as consequências definitivas da medida, dependendo de como ela será interpretada pela imprensa e por outros agentes políticos. "Qualquer previsão neste momento é imprecisa, porque é preciso entender como essa decisão será lida pela imprensa, por Flávio Bolsonaro, por Lula e por outros agentes políticos que influenciam o debate", afirmou o professor, cujas pesquisas sobre política externa para a América Latina e o Brasil foram desenvolvidas em universidades na Alemanha, Bélgica e Índia."}},{"type":"image","data":{"url":"https://s04.video.glbimg.com/x240/992055.jpg","caption":"Agora no g1","alt":"","width":"full","alignment":"center"}},{"type":"paragraph","data":{"text":"Apesar do potencial de Flávio Bolsonaro em ganhar espaço no debate sobre segurança pública, uma área sensível para o governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT) – que registrou sua pior avaliação em pesquisa Datafolha recente –, Lopes sugere que o atual presidente pode reverter a narrativa. Segundo ele, Lula poderia argumentar que a medida demonstra a incapacidade da oposição em lidar com questões internas, recorrendo a uma suposta ajuda externa. "Essa medida pode ser vista como entreguismo, algo contra o Brasil, não a favor, porque prevê uma renúncia de soberania", analisou o professor. A decisão americana veio dois dias após Flávio Bolsonaro se reunir com Donald Trump e um dia após um encontro com Marco Rubio. Historicamente, organizações como o PCC e o Comando Vermelho são consideradas criminosas por agirem com interesses puramente econômicos, sem motivação ideológica, uma distinção que Trump tem questionado, similarmente à sua abordagem com cartéis mexicanos no ano anterior."}},{"type":"paragraph","data":{"text":"A partir de 5 de junho, as facções passarão a ser vistas por Washington como uma ameaça à segurança dos Estados Unidos. Isso abre a possibilidade para que o ex-presidente americano promova intervenções militares no Brasil e imponha sanções a pessoas e entidades que, mesmo sem saber, mantenham ligações com esses grupos. É neste ponto que, segundo o professor, "o tiro pode sair pela culatra" para Flávio Bolsonaro. "Pode-se cogitar que a iniciativa vá alvejar pessoas ligadas à política, além de políticos profissionais, que mantenham interações com o PCC e o CV. Isso já tem vindo à tona nos últimos tempos. Já se sabe de algumas relações envolvendo a turma da Faria Lima, os investidores e os bancos com o crime organizado. Quem propôs essa medida pode estar jogando contra si." Esses indivíduos, em grande parte apoiadores da pré-candidatura de Bolsonaro, se atingidos, "podem se voltar contra ele, porque são pessoas com muito dinheiro e influência para mexer nas alavancas do sistema político brasileiro", pontua o professor. Essa perspectiva encontra respaldo em investigações de órgãos como a Receita Federal, a Polícia Federal e o Ministério Público, que já deflagraram operações contra esquemas de lavagem de dinheiro do PCC, estimados em R$ 52 bilhões entre 2020 e 2024, envolvendo fundos de investimento e empresas financeiras na Faria Lima. No âmbito político, o ex-presidente da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj), Rodrigo Bacellar (União), chegou a ser preso sob suspeita de vazar informações sigilosas e obstruir investigações contra facções criminosas."}},{"type":"paragraph","data":{"text":"As potenciais sanções financeiras contra brasileiros, inspiradas na Lei Magnitsky – utilizada por Trump contra o ministro Alexandre de Moraes do STF no ano anterior –, podem se assemelhar a medidas que dificultam a relação com o sistema financeiro americano. Contudo, o professor Dawisson Belém Lopes avalia que tais sanções devem ser brandas. Ele relembra que bancos brasileiros resistiram à pressão para quebrar relações comerciais com Alexandre de Moraes, sob orientação do Ministério da Fazenda e do Banco Central, demonstrando uma "vacina" contra esse tipo de pressão. "Não vejo o sistema bancário sucumbindo e fazendo o jogo da diplomacia estadunidense, até pelas garantias que o governo brasileiro tem dado", disse. A relação diplomática atual entre Brasil e Estados Unidos é considerada civilizada e com nível de tensão controlado, o que diminui a possibilidade de rupturas significativas. A experiência do México, cujos cartéis foram classificados como terroristas no início do mandato de Trump, também serve de comparação. A presidente mexicana, Claudia Sheinbaum, atendeu a demandas americanas como extradição e reforço na segurança de fronteiras, afastando retaliações mais profundas. "Se no México o impacto foi modesto, no Brasil tende a ser menor ainda", conclui Lopes, ressaltando que, embora os EUA sejam importantes para o Brasil, a China é o principal parceiro comercial, com volume de comércio superior ao dos americanos."}}]},

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