CONTROLE DE DIABETES
Cirurgia metabólica, versão da bariátrica, trata diabetes tipo 2 e controla a doença em até 89% dos casos
Procedimento usa técnica similar à bariátrica, mas focado no pâncreas e hormônios intestinais. Pacientes relatam remissão e melhora na qualidade de vida. Especialistas alertam para acompanhamento contínuo.
No dia seguinte a uma cirurgia metabólica, a motorista de carreta Patrícia Natali Lopes Nicoleti, 39 anos, mediu a glicose e viu o número 71 no aparelho. Por seis anos, ela aplicou insulina até sete vezes ao dia, sem sucesso em controlar a taxa de açúcar no sangue. "Parecia que eu estava sonhando", lembra. Desde então, sua glicemia nunca mais ultrapassou 100.
Patrícia foi submetida à cirurgia metabólica, um procedimento que compartilha a base técnica da cirurgia bariátrica, mas com um objetivo distinto. Enquanto a bariátrica visa a perda de peso, a metabólica foca primariamente no controle da diabetes tipo 2. A informação é do cirurgião do aparelho digestivo Leonardo Emílio da Silva, chefe de equipe cirúrgica no Hospital Israelita Albert Einstein – Unidade Goiânia e especialista em cirurgia robótica.
"A cirurgia metabólica é realizada para estimular o pâncreas a produzir insulina. Com isso, tratamos tanto a diabetes quanto as suas consequências", explica Leonardo Emílio.

A história da cirurgia metabólica remonta aos anos 1950, com as primeiras abordagens de cirurgia bariátrica, combinando redução do estômago e desvio intestinal. Por décadas, o controle do peso era atribuído a dois mecanismos: a restrição, pelo menor volume gástrico, e a desabsorção, pela menor absorção de nutrientes. No entanto, o acompanhamento de pacientes revelou que muitos diabéticos com tratamento complexo apresentavam melhora significativa ou controle total da doença, mesmo antes da perda expressiva de peso. Essa observação levou à investigação, a partir dos anos 1960, de explicações ligadas ao intestino.
Estudos da época demonstraram que a ingestão oral de glicose elevava a insulina no sangue em cerca de uma hora, enquanto a aplicação intravenosa, mesmo prolongada, não gerava o mesmo efeito. A diferença residia em hormônios intestinais —hoje já são mais de 30 identificados— que são liberados apenas quando o alimento transita pelo trato digestivo. "Existe um componente intestinal nessa história: hormônios localizados nesse órgão que fazem o pâncreas, o rim, o fígado e o coração funcionarem melhor, principalmente por meio da insulina", detalha Leonardo Emílio.
Os hormônios GIP (polipeptídeo insulinotrópico dependente de glicose) e GLP-1 (peptídeo semelhante ao glucagon tipo 1) são protagonistas na resposta incretínica, onde quanto mais rápida a chegada do alimento ao final do intestino delgado, maior o estímulo à produção de insulina. A indústria farmacêutica reproduziu esses hormônios em laboratório, originando as canetas injetáveis conhecidas como Mounjaro, Ozempic, Saxenda e Victoza. "São remédios bons, que funcionam. Mas o tratamento mais seguro e efetivo a longo prazo ainda é o cirúrgico", ressalta Leonardo Emílio. Embora os medicamentos sejam essenciais para o tratamento da obesidade, a cirurgia metabólica é considerada mais eficaz e duradoura para diabéticos com obesidade leve, moderada ou grave.
O cenário epidemiológico da diabetes é alarmante: segundo a Federação Internacional de Diabetes (IDF), em 2025, 589 milhões de adultos vivem com a doença no mundo, com projeção de 853 milhões até 2050. Em 2024, a diabetes causou 3,4 milhões de mortes e gerou gastos em saúde superiores a 1 trilhão de dólares anuais. No Brasil, a prevalência é alta, especialmente entre idosos, com cerca de 90% dos casos de diabetes tipo 2 associados à obesidade.
A cirurgia metabólica, realizada sob anestesia geral, frequentemente por via robótica com incisões de aproximadamente 8 milímetros, dura entre 1h e 1h20. A técnica robótica aumenta a precisão cirúrgica e facilita a recuperação, minimizando sangramento e dor pós-operatória. O procedimento envolve a redução do estômago e a reconfiguração do trânsito intestinal para otimizar o estímulo hormonal. O Conselho Federal de Medicina (CFM) autoriza quatro técnicas cirúrgicas para essa reconstrução, e em maio de 2025, ampliou as indicações da cirurgia bariátrica e metabólica, reduzindo o índice de massa corporal mínimo para pacientes com diabetes tipo 2 de difícil controle.
A internação dura apenas uma noite, com retorno à rotina no dia seguinte, mediante a dieta pós-operatória. Os primeiros 30 dias compreendem fases líquida, líquido-pastosa e pastosa, antes da normalização da alimentação. O efeito sobre a diabetes é imediato devido à estimulação hormonal, manifestando-se nos primeiros dias após a cirurgia.
A cirurgia não é indicada para diabéticos sem obesidade. O risco de mortalidade é de aproximadamente 0,1%, comparável a procedimentos como a retirada da vesícula. O índice de controle da diabetes, incluindo remissão completa, pode alcançar 89%. O procedimento está disponível pelo Sistema Único de Saúde (SUS).
Embora doenças crônicas como obesidade e diabetes tipo 2 tenham forte componente genético, a remissão da diabetes pode ser considerada após dez anos de controle estável, conforme Leonardo Emílio. O acompanhamento multidisciplinar (endocrinologista, cirurgião, cardiologista, hepatologista, nutricionista e psicólogo) é crucial antes e após o procedimento. "A alma do processo é o acompanhamento", enfatiza o cirurgião, comparando a lógica a tratamentos oncológicos.
Curiosamente, 40% dos pacientes que recuperam peso após a cirurgia mantêm a diabetes controlada, evidenciando que o efeito da intervenção vai além da perda ponderal.
A distinção entre cirurgia bariátrica e metabólica reside na configuração do desvio intestinal. Na metabólica, o trajeto é otimizado para um estímulo incretínico mais intenso, enquanto a bariátrica clássica foca primariamente na saciedade. A Sociedade Americana de Cirurgia Bariátrica e Metabólica já propõe a unificação dos termos sob o nome "cirurgia metabólica", uma tendência seguida pelas sociedades brasileira e europeia da especialidade.
Patrícia Nicoleti descobriu a diabetes aos 33 anos, um diagnóstico incidental durante uma internação. O tratamento inicial com metformina evoluiu para a necessidade de doses crescentes de insulina, chegando a sete aplicações diárias, além de outros medicamentos, sem controle efetivo da glicemia. "O meu momento mais difícil era aplicar insulina e não ter estômago para tanto remédio. Isso me matava por dentro", relata.
Inspirada por um vídeo nas redes sociais, ela buscou informações sobre a cirurgia metabólica. Após avaliação e confirmação dos critérios, foi operada. "Foi um sucesso", descreve sua recuperação. Hoje, sem medicamentos para diabetes —apenas vitaminas— e após perder 29 kg (de 98 kg para 69 kg), Patrícia afirma: "Hoje me vejo como antes, curada, sem nada. Voltei a viver."
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