BRASIL ENDIVIDADO

Capacidade de compra das famílias atinge menor patamar em 15 anos

Capacidade de compra das famílias atinge menor patamar em 15 anos

Estudo da Tendências Consultoria revela que apenas 21% da renda ampliada das famílias sobra para consumo em fevereiro, marcando o menor nível desde 2011, enquanto o comprometimento com dívidas escala.

O endividamento recorde das famílias brasileiras culminou na menor capacidade de consumo em 15 anos, um dado alarmante revelado pela Tendências Consultoria nesta sábado, 09 de maio de 2026. Com a crescente pressão das dívidas, os cidadãos dispõem de uma fatia cada vez menor da renda para além dos itens básicos e compromissos financeiros, um cenário que compromete a dignidade e a qualidade de vida de milhões, gerando profunda preocupação sobre o futuro econômico do país.

A renda disponível, aquela que resta após o pagamento de despesas essenciais, impostos e dívidas, atingiu o menor patamar desde 2011, ano em que a Tendências Consultoria iniciou sua série histórica. O cenário reflete a crescente dificuldade das famílias em manter um padrão de vida digno e fazer planos futuros.

Em fevereiro deste ano, apenas 21% da massa de renda ampliada das famílias sobravam para consumo. Este percentual representa uma queda significativa em relação aos 23% registrados no mesmo mês de 2025, evidenciando uma rápida deterioração da situação financeira.

Para contextualizar a gravidade da situação atual, os momentos de maior folga no orçamento das famílias foram em março de 2011, com 27,2%, e em junho de 2020, com 27% de renda disponível.

A Tendências Consultoria calcula a massa de renda ampliada somando a renda do trabalho, benefícios sociais, previdência e outras fontes. Desse montante, são subtraídos os gastos com itens essenciais — como habitação, transporte, comunicação, saúde e educação —, além dos compromissos financeiros (pagamento de crédito e juros) e os impostos (Imposto de Renda e contribuição previdenciária). O resultado expõe a verdadeira capacidade de consumo das famílias.

O levantamento aponta para um recuo constante da renda disponível ao longo de todo o ano de 2025, uma tendência preocupante que se acentuou neste ano.

Desde 2025, o peso dos serviços financeiros na renda das famílias aumentou significativamente. Essa piora deve-se, em grande parte, à crescente busca por linhas de crédito emergenciais, que, por sua natureza, apresentam juros mais altos e prazos de pagamento mais curtos, aprisionando ainda mais o orçamento doméstico.

Diante da escalada do endividamento, o tema ganhou centralidade no debate público, levando o Governo a lançar uma nova versão do Desenrola, programa destinado à renegociação de dívidas. O Planalto espera que a iniciativa contenha o volume de dívidas e a inadimplência da população, que seguem em trajetória de alta, impactando a estabilidade social e econômica.

O cenário é corroborado por outras instituições. Segundo o mais recente levantamento da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), os brasileiros se endividaram ainda mais entre março e abril deste ano. A proporção de famílias com dívidas atingiu um novo recorde, subindo de 80,4% em março para 80,9% em abril, marcando o quarto mês consecutivo de recordes.

O Banco Central (BC) também aponta para um aumento no comprometimento da renda familiar com dívidas, que alcançou 29,7% em fevereiro. Este índice, que considera o valor médio pago mensalmente em relação à renda, supera o recorde anterior de 29,5% registrado em janeiro, revelando a magnitude do sufoco financeiro.

A elevada taxa de juros no país persiste como um dos principais motores do endividamento. Mesmo após um recente corte de 0,25 ponto percentual realizado pelo Banco Central, a Selic continua em patamares historicamente altos, tornando o crédito caro e a quitação de dívidas um desafio árduo para milhões.

Contudo, especialistas alertam que a efetiva queda dos juros está intrinsecamente ligada à melhoria das contas públicas e à resolução do problema fiscal. Muitos defendem a urgência de uma nova reforma fiscal em 2027, pois o orçamento público está engessado, e projeções da Instituição Fiscal Independente (IFI) indicam que a dívida pública pode atingir 100% do PIB até 2030, um cenário insustentável.

Críticas e Riscos do Programa Desenrola

Apesar do objetivo de combater o endividamento, o novo Desenrola tem gerado alertas por parte de especialistas e entidades sobre um possível efeito reverso. Uma das opções controversas do programa permite que o beneficiário utilize 20% do saldo do FGTS ou R$ 1.000, o que for maior, para abater ou quitar integralmente suas dívidas.

A Associação Brasileira de Incorporadoras Imobiliárias (Abrainc) critica a medida, argumentando que ela pode desvirtuar a finalidade do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço e prejudicar o setor habitacional, uma vez que muitos trabalhadores dependem desses recursos para adquirir um imóvel. A retirada antecipada pode comprometer o sonho da casa própria para milhões de famílias.

Para além das críticas pontuais, a avaliação predominante é que o uso do FGTS apenas posterga um problema estrutural profundo na sociedade brasileira: o endividamento massivo da população. Especialistas alertam que a medida, por si só, não garante que os beneficiários do programa conseguirão escapar do ciclo vicioso da dívida, podendo retornar ao mapa dos endividados no futuro próximo.

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