RISCO OCULTO
Câncer colorretal em jovens: estudo aponta herbicida
Instituto de Oncologia Vall d’Hebron (VHIO) alerta sobre a exposição a pesticidas, como o picloram, nesta terça-feira, 05/05/2026.
O Instituto de Oncologia Vall d’Hebron (VHIO), na Espanha, revelou nesta terça-feira, 05/05/2026, os resultados de um estudo que liga o crescente número de casos de câncer colorretal em pessoas com menos de 50 anos à exposição a pesticidas, apontando o herbicida picloram como um fator de risco significativo. A pesquisa, publicada na revista Nature Medicine, oferece novas perspectivas sobre o impacto do exposoma – o conjunto de exposições ambientais ao longo da vida – na saúde, acendendo um alerta sobre a necessidade urgente de investigar as causas do aumento da doença em pacientes jovens e aprimorar políticas públicas de prevenção.
Liderado por cientistas do VHIO, o trabalho examinou dados genéticos e ambientais de pacientes, encontrando evidências de que fatores do exposoma podem desempenhar um papel crucial no desenvolvimento do câncer colorretal de início precoce. Esta descoberta é particularmente relevante, visto que os diagnósticos da doença em jovens têm crescido globalmente de forma desproporcional nos últimos anos.
O câncer colorretal, tradicionalmente associado ao envelhecimento, é o terceiro tipo de câncer mais comum e a segunda principal causa de morte por câncer no mundo. Contudo, a incidência em indivíduos com menos de 50 anos, geralmente com características mais agressivas e maior probabilidade de metástases ao diagnóstico, tem desafiado os padrões conhecidos e gerado preocupação.
Um dos achados mais importantes do estudo foi a associação entre o câncer colorretal de início precoce e o herbicida picloram, um composto utilizado globalmente desde a década de 1960. A equipe de pesquisa observou que pacientes mais jovens apresentavam uma exposição elevada à substância quando comparados a indivíduos diagnosticados em fases mais avançadas da vida. Esta correlação foi confirmada através de diversas análises, incluindo uma meta-análise envolvendo nove grupos independentes de pacientes.
A ligação com o picloram foi ainda validada por dados populacionais coletados em 94 condados dos Estados Unidos ao longo de 21 anos, mantendo sua significância mesmo após ajustes para considerar fatores socioeconômicos e o uso de outros tipos de pesticidas.
Jose A. Seoane, um dos autores do estudo, explica que "tumores com alta exposição ao pesticida apresentavam menos mutações no gene APC, um gene fundamental no câncer colorretal que regula a via Wnt, relacionada ao crescimento celular. Isso sugere que a exposição ao picloram pode promover o desenvolvimento do câncer mesmo sem mutações no gene APC." Contudo, Seoane enfatiza a necessidade de mais pesquisas para confirmar se a exposição ao picloram é, de fato, a causa do desenvolvimento precoce da doença.
Para aprofundar a compreensão do papel ambiental, os cientistas investigaram 29 fatores do exposoma, abrangendo desde hábitos de vida e poluição do ar até o contato com pesticidas. Dada a dificuldade em obter dados diretos de exposição, o estudo utilizou marcadores epigenéticos – alterações químicas no DNA – como indicadores indiretos dessas influências.
Os resultados indicaram que níveis mais elevados desses marcadores, ligados a pesticidas, estavam associados ao câncer precoce. Isso levanta a hipótese de que a exposição ao longo da vida, potencialmente iniciada na infância, pode ser um fator contribuinte para a manifestação da doença. Seoane detalha que "foram comparadas assinaturas de metilação entre câncer colorretal de início precoce (menos de 50 anos) e de início tardio (mais de 70 anos). Nessas comparações, as exposições que apresentaram diferenças foram as associadas à dieta, ao tabagismo e ao picloram." Ele complementa: "Medimos isso em tecido tumoral de pacientes com câncer colorretal da população em geral. Não temos dados sobre se os pacientes trabalhavam na agricultura, mas é improvável, já que se trata de uma coorte molecular geral."
O estudo também reconfirmou a influência de fatores já conhecidos no risco de câncer colorretal, como:
- Maior exposição ao tabagismo, associada ao câncer precoce;
- Padrões alimentares menos saudáveis, que também elevaram o risco;
- Níveis mais baixos de escolaridade, mais frequentes entre pacientes jovens.
Em contraste, uma dieta mediterrânea e um nível educacional mais alto mostraram-se associados a um risco reduzido da doença.
A pesquisa ainda identificou diferenças moleculares nos tumores de pacientes com maior exposição ao picloram. Foram observadas alterações em genes e vias biológicas cruciais para o crescimento do câncer, sugerindo uma possível influência direta do pesticida no desenvolvimento tumoral. Os autores, no entanto, reiteram que mais estudos são essenciais para desvendar os mecanismos exatos e estabelecer uma relação de causa e efeito definitiva.
Além do picloram, a análise revelou associações com outros pesticidas, incluindo glifosato, atrazina, nicosulfuron e esfenvalerato. Dentre todos, o picloram se destacou pelos resultados mais consistentes nas diversas análises realizadas pela equipe.
Os pesquisadores, incluindo Elena Élez, da Unidade de Tumores Digestivos do Hospital Universitário Vall d'Hebron e do Grupo de Tumores do Trato Gastrointestinal do VHIO, e Iosune Baraibar, pesquisadora clínica do mesmo Grupo, enfatizam que os achados sublinham a importância de fatores ambientais no aumento dos casos de câncer colorretal em jovens. "O câncer colorretal em pacientes com menos de 50 anos apresenta características clínicas e patológicas particulares. Mas, em nível genômico, as alterações moleculares são semelhantes e nenhuma alteração específica foi identificada," observa Élez. Baraibar acrescenta: "Por isso, as causas do aumento do câncer colorretal de início precoce permanecem obscuras."
Diante desses resultados, o estudo faz um apelo urgente para aprofundar as investigações sobre os efeitos de longo prazo desses compostos e para a implementação de medidas de prevenção eficazes, tanto em nível individual quanto por meio de políticas públicas robustas. Os achados sugerem que o avanço do câncer colorretal entre jovens pode estar interligado não apenas a escolhas de estilo de vida, mas também a exposições ambientais que ainda carecem de compreensão total. Seoane reitera, para finalizar, que "o estudo é completamente observacional. Por isso, não são estabelecidas relações causais, apenas associações."
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