PARTIDOS GANHAM VANTAGENS

Câmara aprova projeto que concede benefícios a partidos políticos em votação silenciosa

Plenário da Câmara dos Deputados vazio durante votação de projeto.
Plenário da Câmara dos Deputados em momento de votação de projeto.

Projeto aprovado às pressas na Câmara dos Deputados concede uma série de benefícios, incluindo facilitação para envio de mensagens e regras flexibilizadas para débitos. Votação ocorreu com plenário esvaziado e poucas manifestações.

A Câmara dos Deputados aprovou, nesta domingo, 24/05/2026, um projeto que estabelece uma série de benefícios para os partidos políticos. A decisão foi tomada em uma votação marcada pelo silêncio, com a ausência da maioria dos parlamentares e um plenário visivelmente esvaziado. A medida impacta diretamente o financiamento e a operação das legendas, levantando questões sobre o equilíbrio democrático e a transparência na política.

Às terças-feiras, o costume é a presença dos deputados nas sessões de votação, mas, na última semana, essa rotina foi quebrada. O presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), chegou a conduzir parte da sessão, mas deixou a Mesa Diretora antes da votação do projeto. A proposta, incluída na pauta na tarde de terça-feira (19), após reunião de líderes, circulou em formato físico e digital, com alegações conflitantes sobre sua divulgação e negociação.

Plenário da Câmara dos Deputados vazio durante votação de projeto.
Plenário da Câmara dos Deputados em momento de votação de projeto.

Parlamentares relataram ao g1 que uma cópia física do texto tramitava na Casa há semanas e foi apresentada ao colégio de líderes pelo relator, deputado Rodrigo Gambale (Podemos-SP), representante da deputada Renata Abreu (Podemos-SP). Embora Abreu tenha confirmado conversas sobre os dispositivos na esfera técnica e jurídica, Gambale negou que a estratégia de veiculação tardia da versão digital, horas antes da votação, visasse dificultar vazamentos, afirmando que o texto foi compartilhado diversas vezes com os líderes via Whatsapp há mais de dois meses.

Após aprovação dos presidentes partidários, o texto foi pautado por Motta. Para evitar desgaste, a urgência e o mérito foram votados no mesmo dia, de forma simbólica, sem registro de votos no painel. Apenas quatro dos 502 deputados presentes discursaram, e nenhum defendeu o texto abertamente, com exceção do relator. Adriana Ventura (Novo-SP), Kim Kataguiri (Missão-SP), Fernanda Melchionna (PSOL-RS) e Chico Alencar (PSOL-RJ) criticaram a proposta, enquanto outros anexaram votos contrários sem se manifestarem.

A proposta aprovada elimina o bloqueio ou repasse de recursos do Fundo Partidário para partidos resultantes de fusões ou incorporações, vinculados a prestações de contas anteriores. Permite também o registro de um número de telefone oficial junto à Justiça Eleitoral para envio de mensagens a eleitores, sem bloqueio pelas plataformas, salvo por ordem judicial. Essa medida vai de encontro às iniciativas da Justiça Eleitoral para combater a desinformação.

Adicionalmente, os processos judiciais sobre agremiações que compõem a nova legenda terão seus trâmites suspensos até a intimação do novo representante legal. O texto estabelece um limite de três anos para o julgamento de contas partidárias pela Justiça Eleitoral, com extinção automática do processo caso o prazo não seja cumprido. Durante o semestre eleitoral, não poderão ser aplicadas sanções como suspensão de repasses do Fundo Partidário e Fundo Eleitoral (FEFC), descontos de condenações anteriores ou suspensão de órgãos partidários.

  • Limite de multa por rejeição de contas a R$ 30 mil, atualmente podendo chegar a 20% da parcela irregular.
  • Parcelamento de débitos partidários em até 180 meses, a critério do partido, independentemente do valor.
  • Blindagem do diretório nacional contra sanções impostas a órgãos estaduais e municipais, abolindo a responsabilidade solidária.
  • Autorização para criação de universidades partidárias com cobrança de mensalidades e dispensa de comprovação de desempenho de tarefas por dirigentes.

As novas regras entram em vigor imediatamente após a aprovação, não se submetendo ao princípio da anualidade da lei eleitoral, o que permite sua aplicação na próxima eleição. Segundo o advogado Alexandre Bissoli, representante de partidos como Podemos, PRD, Rede e PP, o dispositivo de mensagens visa facilitar a comunicação partidária com filiados e não incentivar disparos em massa. Ele argumenta que a definição de um número oficial com responsabilidade criminal por infrações e o parcelamento de débitos buscam evitar o calote e a inviabilidade financeira das legendas.

Bissoli defende que a multa máxima de R$ 30 mil visa coibir a multiplicação excessiva de valores por parte dos tribunais eleitorais, transformando a multa em uma fonte de arrecadação. A medida, segundo ele, garante que a devolução integral do valor irregularmente recebido seja feita, acrescida de uma multa com valor limitado.

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