AUTARQUIA INVESTIGA
Cade abre processo contra Itaú por carteiras digitais
Banco é suspeito de criar barreiras no mercado de cartões e dar tratamento desigual a concorrentes, segundo o Cade. Prazo de 30 dias para defesa.
O Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) instaurou um processo administrativo contra o Itaú Unibanco para apurar possíveis infrações à ordem econômica. A Superintendência-Geral do órgão suspeita que o banco criou barreiras injustificadas em transações envolvendo carteiras digitais, prejudicando a livre concorrência no mercado de cartões. A instituição financeira tem 30 dias para apresentar sua defesa formal à autarquia. A decisão foi proferida pelo superintendente-geral do Cade, Alexandre Barreto de Souza, na quarta-feira, 27/05/2026, após acolher integralmente uma nota técnica do Ministério Público Federal. O caso teve origem em 2024, a partir de uma representação do MPF baseada em denúncia do PicPay. Segundo a denúncia, o Itaú Unibanco teria recusado operações de aporte de recursos via cartão de crédito em plataformas concorrentes como PicPay, Mercado Pago e RecargaPay. Em contraste, transações semelhantes eram permitidas na carteira digital do próprio banco, o It, que foi descontinuada no final de 2024. O parecer do MPF destacou que o Itaú, com 22% do mercado nacional de cartões de crédito, possui posição de liderança que lhe confere capacidade de influenciar as regras de uso de seus cartões por terceiros. Os investigadores apontam indícios de "tratamento assimétrico entre operações funcionalmente comparáveis", sugerindo que os bloqueios deixaram de ser uma política neutra de controle de fraudes e passaram a ser uma "restrição seletiva em benefício próprio" para proteger o ecossistema do banco. Em 2025, o Cade chegou a emitir uma medida preventiva para suspender os bloqueios, sob pena de multa. Na época, o Itaú argumentou falta de acesso ao teor completo das denúncias e que a prática era comum em outros bancos. Técnicos do Cade rejeitaram a justificativa, mas recomendaram a investigação de Bradesco, Santander, Banco do Brasil e Caixa, que, somados, detêm 34% do mercado. Até o momento, essas instituições não foram incluídas no processo. O Poder360 procurou o Itaú Unibanco para comentar a instauração do processo, mas não obteve retorno até a publicação desta reportagem. O espaço permanece aberto. Em manifestações anteriores, o banco afirmou que suas políticas de aprovação de transações consideram critérios técnicos e de gestão de risco, aplicados de forma isonômica e em conformidade com a regulação. O Itaú alega que transações de aporte em carteiras digitais registram índices de inadimplência significativamente superiores às compras tradicionais, podendo ser até cinco vezes maiores. A instituição argumenta que essas restrições, transparentes desde 2022, visam proteger clientes vulneráveis e evitar o superendividamento, com respaldo nas normas do Banco Central e das bandeiras de cartões.
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