BRASIL SE DISTANCIA

Brasil diverge de potências do G7 e questiona textos moldados para agradar Trump

Presidente Lula discursa em evento internacional.
O Presidente Luiz Inácio Lula da Silva discursa durante a cúpula do G7 em Évian, França.

País adere a apenas dois dos cinco documentos divulgados na cúpula em Évian, França, criticando omissão de temas cruciais como mudanças climáticas e o papel da OMS.

O Brasil encerrou nesta terça-feira, 16/06/2026, o segundo dia de participação na cúpula do G7 em Évian, na França, com uma posição diplomática que evidencia a distância entre Brasília e o grupo das sete economias mais desenvolvidas do mundo. Dos cinco documentos divulgados pela presidência francesa, o Brasil manifestou adesão a apenas dois.

A avaliação do governo brasileiro é que grande parte dos textos foi deliberadamente adaptada para assegurar a permanência dos Estados Unidos na cúpula e evitar um possível veto do presidente Donald Trump. Conforme a perspectiva de Brasília, esse movimento resultou em documentos que negligenciam temas centrais, como a crise climática, a reforma das instituições multilaterais e a relevância da Organização Mundial da Saúde (OMS), em uma tentativa de não contrariar Washington.

Dos três primeiros textos apresentados, o Brasil endossou apenas a declaração sobre o combate ao câncer, uma área considerada prioritária pelo governo Lula, que tem investido em programas de ampliação do atendimento oncológico na rede pública.

A declaração sobre parcerias internacionais para o desenvolvimento, que serviu de base para a sessão da tarde onde Lula discursou, foi rejeitada pelo Brasil. O documento sugere a mobilização de capital privado e mecanismos de garantia para investidores como resposta à acentuada queda na ajuda ao desenvolvimento. Contudo, Brasília considera essa abordagem insuficiente e desprovida de um debate político mais aprofundado.

Na visão brasileira, o texto ignora questões ambientais, de endividamento externo e de combate à fome. A mudança climática, tema crucial, não é mencionada em nenhum momento, uma ausência que o governo brasileiro atribui diretamente à necessidade de acomodar os interesses dos Estados Unidos.

A declaração referente ao surto de ebola na República Democrática do Congo e em Uganda também não contou com o apoio brasileiro. O motivo para tal posicionamento foi a ausência de qualquer menção à OMS no documento.

Segundo o governo brasileiro, essa omissão foi intencional para não desagradar Washington, que reduziu drasticamente seu financiamento ao organismo internacional. O Brasil optou por formalizar sua posição sobre saúde global através de uma carta enviada por Lula ao secretário-geral da OMS, Tedros Adhanom, solicitando apoio de países do G20 e do G7 à agência.

O Brasil também aderiu à declaração sobre combate ao narcotráfico. Anteriormente, o país havia feito a ressalva de que só endossaria o documento se o texto final abordasse a temática da lavagem de dinheiro sem classificar organizações criminosas como grupos terroristas. A declaração sobre a proteção de crianças nas redes sociais também deve receber o aval brasileiro, dado que o país possui legislação própria e experiência a compartilhar sobre o tema.

Brasília não deve assinar a declaração sobre desequilíbrios macroeconômicos. Na avaliação brasileira, o documento trata o problema como uma questão essencialmente ligada à China, sem considerar os impactos do unilateralismo comercial e dos conflitos internacionais sobre as cadeias produtivas globais.

O Brasil também ficou de fora da declaração sobre migração e não aderiu à de minerais críticos. O governo brasileiro considera o enfoque deste último documento extrativista e geopolítico, voltado para a criação de uma coalizão ocidental contra a influência chinesa, sem levar em conta o direito dos países produtores de agregar valor às suas cadeias produtivas.

O debate sobre desenvolvimento

Durante a sessão da tarde, que reuniu os membros do G7 e os países convidados —Brasil, Índia, Coreia do Sul e Quênia—, as intervenções destacaram as divergências de visão sobre o tema do desenvolvimento.

O anfitrião Emmanuel Macron concentrou-se em mecanismos de garantia para atrair capital privado. Donald Trump defendeu as contribuições americanas à África, sem conectar sua fala ao documento que embasava o debate. Lula, por sua vez, argumentou que o problema não reside na escassez de recursos, mas na escolha política sobre como utilizá-los, uma posição que diverge da abordagem predominante no texto do G7.

Nenhum líder presente rebateu diretamente o discurso brasileiro. A intervenção que mais se aproximou da posição de Brasília, segundo relatos de quem acompanhou a sessão, foi a da primeira-ministra italiana Giorgia Meloni, que reconheceu que os países ricos cometeram erros nas últimas décadas e contribuíram para a criação de dependência nos países em desenvolvimento.

Lula e Trump: questão irrelevante

Nas redes sociais e em parte da cobertura jornalística, circulou nesta terça-feira a dúvida sobre se Lula e Trump se cumprimentaram ou se teriam deliberadamente se evitado. Imagens dos líderes reunidos para a foto oficial do encontro mostram Trump passando por Lula sem que houvesse saudação.

A assessoria do presidente brasileiro afirma considerar a questão irrelevante. Não há confirmação de que os dois líderes tenham interagido, mas também não há elementos que indiquem um evitamento intencional.

Ambos estarão presentes nos mesmos eventos nesta quarta-feira, e um cumprimento informal não está descartado. O governo brasileiro reitera que não houve pedido de reunião bilateral entre Lula e Trump e que, no momento, não há pauta para um encontro formal.

Agenda de quarta-feira

No último dia da cúpula, Lula participará de uma sessão de trabalho sobre crescimento econômico equilibrado e de um almoço com representantes das principais empresas de tecnologia do mundo para debater inteligência artificial.

Está prevista ainda uma possível reunião bilateral com o presidente do Egito, Abdel Fattah Al-Sisi.

Ao final dos trabalhos em Évian, o presidente seguirá para Genebra. Lá, deve se reunir com Valdecy Urquiza, secretário-geral da Interpol e primeiro brasileiro a ocupar o cargo, acompanhado do diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues. Este encontro ocorre em um contexto de tensão com Washington após a designação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas pelos Estados Unidos.

Também deve entrar na agenda desta quarta-feira uma reunião com o presidente da Ucrânia, Volodimir Zelenski, a pedido de Kiev.

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