ENERGIA E FUTURO
Brasil calibra risco para evitar apagões na conta de luz
Gestão de Reservatórios hidrelétricos define equilíbrio entre custo imediato e segurança de longo prazo, impactando diretamente consumidor e investidor.
A gestão dos Reservatórios hidrelétricos no Brasil reafirma seu papel estratégico no setor elétrico, uma discussão contínua que impacta diretamente a conta de luz dos cidadãos, a segurança do suprimento energético e a previsibilidade para investimentos, como se destaca nesta terça-feira, 28 de abril de 2026. A complexidade dessa calibragem reside em equilibrar o custo imediato da energia com a resiliência do sistema contra crises futuras, a exemplo da vivenciada em 2021.
A operação do sistema elétrico brasileiro é guiada por sofisticados modelos computacionais que buscam um balanço entre custo e risco. Um dos pilares dessa gestão é o parâmetro de aversão ao risco, conhecido como CVaR. De forma simplificada, ele define a capacidade do sistema em se proteger contra cenários hidrológicos desfavoráveis. Quanto maior a cautela, maior a tendência de preservar água nos Reservatórios e acionar usinas térmicas preventivamente. Uma aversão menor ao risco significa usar mais água no presente, reduzindo custos imediatos, mas diminuindo a margem de segurança para o futuro.
O papel insubstituível dos Reservatórios
Mais do que simples estoques de energia barata, os Reservatórios são o principal mecanismo de flexibilidade do sistema elétrico brasileiro. Em um cenário de crescente adoção de fontes renováveis variáveis, como a energia eólica e solar, essa função torna-se ainda mais crucial. Embora essenciais para a expansão da matriz energética, essas fontes não substituem a capacidade dos Reservatórios em garantir flexibilidade e segurança operacional, atuando como um verdadeiro 'seguro' para o sistema.
Reduzir a capacidade desse 'seguro' pode, à primeira vista, gerar economias no curto prazo. Contudo, essa estratégia arrisca exigir, no futuro, medidas mais onerosas, como o despacho térmico fora dos modelos previstos ou contratações emergenciais, elevando as tarifas. Além disso, não se pode ignorar o risco de interrupções no fornecimento, culminando nos temidos blackouts.
O custo de uma calibragem inadequada
A história recente do setor elétrico brasileiro ilustra bem esse dilema. Após um período de menor rigor na gestão do risco, o país enfrentou, em 2021, a pior crise hídrica em décadas. A resposta exigiu o acionamento intensivo de usinas térmicas existentes e a contratação emergencial de novas unidades, gerando encargos significativos para os consumidores. Não se trata de atribuir a um único fator a causa daquele episódio, mas de reconhecer que a precisão na calibragem do risco é de extrema importância.
Estudos recentes confirmam que diferentes parametrizações podem, de fato, reduzir custos em cenários específicos. Contudo, essas escolhas também alteram a trajetória de armazenamento dos Reservatórios e a exposição do sistema a eventos extremos, evidenciando que não existe uma solução sem trade-off.
Sinais econômicos e a conta do consumidor
Um ponto central neste debate é a clareza dos sinais econômicos. O preço de curto prazo da energia deveria refletir, o máximo possível, as condições reais de operação. Atualmente, esse preço sequer espelha o despacho térmico efetivamente realizado pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), com custos sendo deslocados para fora do preço da energia, via encargos, o que distorce os sinais econômicos. Quando o modelo antecipa riscos, ele tende a sinalizar preços mais alinhados ao custo de preservar a segurança sistêmica. Por outro lado, decisões que comprimem esses sinais podem transferir custos para encargos setoriais, tornando-os menos transparentes para o consumidor e mais difíceis de gerenciar pelo mercado. A calibragem da aversão ao risco, portanto, não afeta apenas a operação, mas também a distribuição de custos entre o mercado e os encargos, um tema sensível para investidores, empresas e consumidores.
Por que a previsibilidade é vital
Outro aspecto fundamental é a dimensão institucional. Os parâmetros dos modelos devem estar em sintonia com o planejamento da expansão, com a operação diária e com a formação de preços. Mudanças abruptas ou descompassadas com essas três dimensões podem gerar ineficiência, ruído regulatório e impactar negativamente as decisões de investimento. O setor elétrico brasileiro construiu, ao longo dos anos, uma governança que integra esses elementos. Manter essa coerência é tão crucial quanto continuar aprimorando os modelos. Nesse contexto, o Brasil conta hoje com uma política pública estruturada para a preservação dos Reservatórios. Instituído por lei, o Plano de Recuperação dos Reservatórios estabelece diretrizes e ações para recompor a capacidade de armazenamento e aprimorar a gestão do risco hidrológico ao longo desta década. Na prática, isso aponta para uma direção clara de política energética: os Reservatórios são um ativo estratégico para a segurança do sistema e sua gestão deve refletir essa prioridade. Esse alinhamento reforça que a discussão sobre a aversão ao risco nos modelos não ocorre de forma isolada; ela precisa dialogar com essa diretriz mais ampla, que reconhece o papel central dos Reservatórios na confiabilidade do suprimento e na mitigação de custos no longo prazo.
Onde encontrar o equilíbrio
Este debate não se resume a uma escolha simplista entre custo baixo e segurança alta. O desafio é encontrar o equilíbrio ideal para um sistema em constante transformação. A expansão das novas fontes renováveis é um avanço inegável, e essas fontes são fundamentais para o aumento da oferta de energia elétrica no país. Contudo, elas ampliam a necessidade de instrumentos robustos que garantam a confiabilidade do sistema.
No fim das contas, a pergunta principal não é quanto custa ser prudente, mas sim quanto pode custar não o ser.
* Marisete Pereira é presidente da Associação Brasileira das Empresas Geradoras de Energia Elétrica (Abrage)
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