INFRAESTRUTURA CRÍTICA

Brasil arrisca perder investimento em data centers e IA, alerta CEO da Hitachi Energy

Glauco Freitas, CEO da Hitachi Energy, em entrevista sobre desafios de infraestrutura energética no Brasil.
Glauco Freitas em entrevista ao Poder360 em Brasília, na qual abordou os desafios da infraestrutura brasileira para data centers e energia renovável.

Glauco Freitas, da Hitachi Energy, aponta paradoxo energético: sobreoferta no Norte/Nordeste, mas falta de transmissão afasta US$ 270 milhões em IA e hidrogênio verde.

O Brasil corre o risco de perder investimentos cruciais em tecnologias de ponta, como inteligência artificial e hidrogênio verde, devido à insuficiência de infraestrutura para data centers e indústrias eletrointensivas. É o que alerta Glauco Freitas, presidente da Hitachi Energy no Brasil e responsável pela América do Sul, destacando que, apesar da vasta oferta de energia renovável, gargalos técnicos e regulatórios impedem o país de atrair esses capitais. As declarações, feitas em entrevista ao Poder360 gravada em Brasília na última quarta-feira, 29 de abril de 2026, revelam um paradoxo energético que freia o desenvolvimento e a modernização do parque industrial nacional.

Freitas, de 54 anos, que lidera as operações da Hitachi Energy no Brasil desde fevereiro de 2024 e expandiu sua atuação para América do Sul em 2026 – abrangendo Argentina, Chile, Paraguai e Uruguai –, enfatiza que o sistema de transmissão nacional não acompanha a expansão da geração renovável nem o crescimento da demanda futura. “A transmissão de energia brasileira não está preparada nem para escoar a energia para os centros consumidores nem para receber esses consumidores que demandam muita energia”, ressalta.

O executivo explica que, nos últimos seis anos, o Brasil aumentou sua capacidade instalada de geração em mais de 30%, impulsionado especialmente pelas fontes solar e eólica. Contudo, essa expansão não foi acompanhada pelo avanço necessário na transmissão. Isso resulta em uma parte significativa da energia produzida no Norte e Nordeste sendo desperdiçada – um fenômeno conhecido como “curtailment”, onde usinas precisam cessar a produção por falta de demanda ou limitações na rede.

Glauco destaca que o país possui uma “janela de oportunidades” para atrair data centers e indústrias de inteligência artificial, mas alerta que esses investimentos, cruciais para a economia digital e a geração de empregos qualificados, podem facilmente migrar para mercados mais preparados. “Essa indústria não precisa planejar anos para se instalar. Ela precisa de cabo submarino, espaço e energia”, enfatiza, sublinhando a agilidade com que esses empreendimentos buscam localização.

Leilões e investimentos

O executivo apela para que o governo e as agências reguladoras agilizem a adaptação dos leilões e acelerem os investimentos em transmissão. Ele defende uma visão integrada da infraestrutura, expandindo simultaneamente energia, portos, aeroportos e logística. “A transição energética já não se discute mais. O que se precisa agora é garantir os investimentos para que ela aconteça”, afirma, indicando que a inércia pode custar ao Brasil uma posição de destaque na economia verde global.

Glauco projeta que o avanço da IA impulsionará significativamente o consumo global de eletricidade. “A eletricidade representará 50% da matriz energética global até 2035, impulsionada pela expansão dos data centers, da mobilidade elétrica e da descarbonização industrial”, pontua, reiterando a urgência de uma rede robusta.

A Hitachi Energy demonstra seu compromisso com o mercado brasileiro, destinando US$ 270 milhões em investimentos locais até 2027. Este montante representa o terceiro maior aporte global da companhia, presente em mais de 100 países. Os recursos serão aplicados na ampliação da fábrica em Guarulhos (SP) e na construção de uma nova unidade em Pindamonhangaba (SP), visando aumentar a capacidade produtiva em 120%. Freitas conclui que a tecnologia deve ser uma facilitadora, não um obstáculo, na transição energética, e defende a digitalização das redes como passo fundamental.

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