CIDADE PARA PESSOAS

Berlim pode votar por futuro sem carros no centro

Trânsito intenso na cidade de Paris, em uma rua com muitos carros.
Imagem de trânsito em Paris — Foto: Benoit Tessier/Reuters

Prazo final para assinaturas é nesta sexta-feira, 08 de maio de 2026; proposta visa devolver espaço urbano à população.

Uma campanha ambiciosa em Berlim alcança seu momento decisivo nesta sexta-feira, 08 de maio de 2026, com o movimento "Berlim Sem Carros" buscando coletar 240 mil assinaturas para um referendo. A iniciativa visa transformar o coração da capital alemã, reclassificando as ruas centrais como "de tráfego reduzido" para priorizar pedestres e transportes alternativos, um esforço que pode redefinir o cotidiano de milhões de berlinenses e a qualidade de vida urbana. A proposta nasce da frustração com o congestionamento – no ano passado, berlinenses perderam 60 horas de suas vidas presos no trânsito – e da visão de uma cidade mais verde e saudável, onde o espaço público é devolvido às pessoas.

Liderado pelo engenheiro Oliver Collmann, que trocou o desenvolvimento de software para carros autônomos pelo ativismo cívico, o movimento argumenta que Berlim ainda é excessivamente centrada no automóvel, com veículos ocupando até 80% do espaço urbano. O objetivo não é banir os carros, mas combater seu "uso excessivo" e a presença massiva de grandes veículos. A ideia é permitir o uso de carros particulares no centro apenas 12 vezes por ano para moradores, com exceções para mobilidade reduzida, emergências e entregas comerciais.

Os defensores da proposta veem um futuro com ar mais limpo, menos poluição sonora, mais espaço para árvores que ajudam a combater o calor e melhor saúde pública. No entanto, o professor adjunto de planejamento espacial Oliver Lah, do Instituto de Tecnologia de Blekinge, na Suécia, questiona a eficácia de proibições, sugerindo que "fornecer algo que as pessoas realmente queiram é o que de fato ajuda" e que os berlinenses deveriam buscar um consenso.

Outras capitais europeias já exploram modelos de convivência urbana com menos carros. Em 2017, Oslo, na Noruega, implementou um programa de redução de tráfego que prioriza pedestres e desestimula o uso de veículos particulares. Por meio de um pedágio urbano automatizado, a cidade conseguiu diminuir o tráfego em 28% dentro da área central até 2020. Além disso, transformou ruas em "espaços habitáveis" em 2022, com bancos, áreas verdes e elementos naturais, resultando em um aumento de 38% na circulação de pedestres aos sábados e melhores condições para ciclistas.

Paris, por sua vez, popularizou o conceito de "cidade de 15 minutos", idealizado pelo pesquisador Carlos Moreno e adotado pela ex-prefeita Anne Hidalgo. A ideia é que a maioria das necessidades diárias possa ser acessada a pé ou de bicicleta em até 15 minutos. A capital francesa introduziu zonas de tráfego limitado no fim de 2024, permitindo a circulação motorizada que começa ou termina nas zonas, mas proibindo seu uso como atalho. Esta medida reduziu o tráfego em até 8% nos dois últimos meses de 2024, sem imposição inicial de multas, o que permitiu aos motoristas se adaptarem.

Um estudo de 2026 já demonstra que modelos urbanos centrados no pedestre, como o de Paris, contribuem para menores emissões de transporte per capita. Em Berlim, se o movimento "Berlim Sem Carros" alcançar as 240 mil assinaturas necessárias até esta sexta-feira, 08 de maio de 2026, os moradores da capital alemã terão a chance de votar em um referendo ainda este ano, decidindo o futuro do coração da cidade e o equilíbrio entre a vida humana e o automóvel.

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