SOLUÇÃO PARA ENERGIA
Baterias podem solucionar impasse de curtailment e excesso de microgeração, diz Associação Brasileira de Soluções de Armazenamento de Energia
Diretor da Absae, Fabio Monteiro Lima, explica como baterias integradas a usinas eólicas e solares podem evitar desperdícios e gerar novas receitas, além de mitigar problemas com a micro e minigeração distribuída.
A integração de sistemas de armazenamento em baterias às usinas solares e eólicas desponta como uma solução promissora para os desafios de curtailment e o excesso de micro e minigeração distribuída no setor elétrico brasileiro. A avaliação é do diretor-executivo da Absae (Associação Brasileira de Soluções de Armazenamento de Energia), Fabio Monteiro Lima, em entrevista ao Poder360. A decisão, anunciada em 18 de junho de 2026, visa otimizar a rede elétrica e garantir o aproveitamento de fontes renováveis.
Para o diretor, as baterias poderiam ser integradas a geradores solares e eólicos para armazenar o excedente de energia que acaba sendo cortado pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS). Essa capacidade de armazenamento permitiria que as usinas renováveis aproveitassem a energia que seria desperdiçada no mercado de capacidade, um modelo que remunera as usinas pela disponibilidade de gerar energia quando o sistema necessitar.
Pelo modelo proposto, a energia armazenada durante o dia, período em que há excesso de oferta, pode ser disponibilizada à rede em horários de maior demanda, como no final da tarde e à noite. Nesses momentos, o Preço de Liquidação das Diferenças (PLD) é mais elevado, proporcionando às usinas solares e eólicas uma dupla fonte de receita e evitando perdas.
O investimento em armazenamento por usinas eólicas e solares ainda enfrenta um obstáculo significativo: impostos de importação sobre equipamentos que podem chegar a 70%. Fabio Monteiro Lima defende a implementação de mecanismos regulatórios e de mercado que tornem o armazenamento de energia financeiramente mais atraente. "O que a gente precisa é dar o sinal econômico correto", afirma Lima, questionando a ausência de investimento em baterias por empreendedores que sofrem com o curtailment.
O diretor ressalta que a alta tributação, a ineficiência na redução do uso da rede de transmissão e a falta de acesso ao mercado de capacidade impedem o investimento. "Se a gente der esses sinais, os geradores eólicos e solares vão investir em armazenamento, contribuindo para a redução do problema do curtailment", declarou.
Os cortes forçados na geração de energia renovável, conhecidos como curtailments, representam um dos maiores desafios para o setor elétrico brasileiro. O curtailment ocorre quando o ONS obriga usinas renováveis a reduzirem sua produção, mesmo em condições ideais de vento ou sol, a fim de equilibrar a geração e o consumo em tempo real. Essa prática resulta em desperdício de energia limpa e perdas financeiras expressivas para o setor, que frequentemente é forçado a descartar parte de sua produção.
A entrevista completa com Fabio Lima ao Poder360, com duração de 32 minutos e 5 segundos, está disponível.
PARTICIPAÇÃO DO CONSUMIDOR
Em relação à participação do consumidor, Fabio Lima defende a adoção da tarifa horária. Atualmente, a maioria dos brasileiros paga um valor fixo pela energia, independentemente do horário de consumo. Com a tarifa horária, os consumidores receberiam um sinal de preço mais realista: a energia seria mais barata nos momentos de sobra de oferta (como ao meio-dia) e mais cara nos horários de pico de demanda, como na ponta noturna.
"O curtailment vem de uma falta de sinal econômico adequado. O consumidor residencial não tem sinal para consumir no horário de sobra, para reduzir seu consumo na ponta. E o gerador não tem sinal suficiente para investir em novas tecnologias para reduzir sua exposição ao curtailment. Esse é o trabalho que a gente tem que fazer agora", explica o diretor.
MICRO E MINIGERAÇÃO
A integração de baterias também é vista como uma solução para os problemas de excesso de produção gerados pela Micro e Minigeração Distribuída (MMGD) – sistemas de pequena escala, como os solares em residências e comércios. Parte do setor elétrico percebe a expansão da MMGD como uma ameaça e uma das principais causas do curtailment. O segmento de MMGD já ultrapassa 44 GW de capacidade instalada, quase 20% da capacidade total de geração do país, podendo sobrecarregar o sistema elétrico nacional em horários de baixa demanda.
Assim como representantes do setor de MMGD, Lima defende incentivos para que proprietários de sistemas de geração distribuída instalem baterias para armazenar o excedente de energia, evitando a injeção na rede em momentos de baixa necessidade sistêmica. "Com o sinal econômico correto, com tarifa horária, com sinalização da participação no mercado de capacidade, naturalmente o investidor de geração distribuída ou usuário de geração distribuída vai adotar uma bateria na sua própria residência, na sua própria unidade consumidora e com isso, vai deixar de despejar aquela energia na rede no momento de menor interesse sistêmico", conclui.
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