PEÇA CHAVE DA TRANSIÇÃO

Bateria se torna principal fator de dúvida na compra de carros eletrificados no Rio Grande do Norte

Close-up de uma bateria de carro elétrico com componentes visíveis, representando a tecnologia avançada e as preocupações associadas.
Bateria de carro elétrico em destaque, simbolizando a nova prioridade na decisão de compra.

Autonomia, vida útil e custo de substituição geram receio em consumidores e revendedores de veículos novos e usados. Especialistas apontam para a necessidade de maior preparo técnico e de pós-venda.

A bateria, componente central dos veículos eletrificados, emergiu como o principal ponto de interrogação para quem deseja adquirir um carro híbrido, plug-in ou elétrico no Rio Grande do Norte. A prioridade do consumidor mudou: antes focada em motor, consumo, preço, design, conforto e valor de revenda, a decisão de compra agora gira em torno de questões como autonomia real, tempo de carregamento, vida útil, garantia, custo de substituição, degradação, software, pós-venda e segurança na revenda. Essa transformação no perfil do comprador reflete um movimento nacional, impulsionado pelo aumento de 26% nas vendas de veículos leves eletrificados no Brasil em 2025, superando o crescimento do mercado total de veículos leves. Concessionárias e lojas multimarcas confirmam que a bateria é hoje o maior gerador de confiança ou insegurança para o cliente. Nesta quarta-feira, 03/06/2026, a constatação é unânime: o carro evoluiu, e com ele, a forma de avaliar, vender e comprar seminovos. No mercado de seminovos em Natal, o impacto da bateria na confiança do consumidor já é palpável. Álvaro Crisanto, presidente da Anreve (Associação Norte-Riograndense de Revendedores de Veículos), observa que híbridos leves e plug-ins têm boa aceitação, enquanto os elétricos 100% ganham espaço à medida que modelos mais antigos chegam ao mercado de usados. "Os híbridos leves e plug-ins já estão com uma boa penetração no mercado. Os elétricos 100% ainda representam menor volume, mas crescem rápido porque houve explosão de vendas de zero quilômetro neste ano. E a venda do zero quilômetro abastece o mercado de seminovos com o passar do tempo", afirma Crisanto. No entanto, o receio quanto à bateria é mais acentuado em veículos usados. Compradores buscam informações sobre o histórico de uso, recarga, autonomia restante e validade da garantia. "O principal receio é bateria: custo de substituição e degradação. O consumidor médio ainda não entende bem vida útil, garantia e perda de autonomia. Mas a garantia de até oito anos minimiza esses impactos", detalha Crisanto. A durabilidade da bateria é influenciada por diversos fatores além da idade, como temperatura, uso de recarga rápida, níveis de carga e de descarga, e o perfil de condução, o que significa que veículos idênticos podem apresentar degradação distinta. Essa nova realidade exige que lojas multimarcas incorporem análises técnicas antes desconsideradas, como a saúde da bateria, histórico de recarga, autonomia real, software e garantia remanescente. "A loja multimarcas agora precisa aprender coisas que antes não eram relevantes para avaliação dos carros, como saúde da bateria, histórico de recarga, autonomia real, software e atualizações, garantia remanescente da bateria. Então está mudando completamente as avaliações", ressalta Crisanto. Essa mudança afeta a liquidez: enquanto veículos a combustão mantêm um comportamento previsível, elétricos premium sofrem desvalorização mais acentuada, e elétricos de entrada, especialmente aqueles utilizados por motoristas de aplicativo, mantêm alta procura. Nas concessionárias, a venda de eletrificados demanda uma abordagem mais consultiva e técnica. Leonardo de Medeiros Alves Pereira, gerente geral da Buda Motors (representante Mitsubishi em Natal), explica que a preparação dos vendedores precisa ser mais aprofundada. "Hoje, vender um híbrido ou elétrico exige um nível de preparação técnica e consultiva muito maior do que no veículo tradicional", pontua. O consumidor, embora busque economia a curto e médio prazo, ainda tem dúvidas sobre viagens, recarga e manutenção, com a bateria figurando como ponto central em quase todas essas questões. A viabilidade do avanço dos eletrificados, segundo Leonardo, dependerá da capacidade das marcas em oferecer um ecossistema robusto de oficina, peças, diagnóstico e pós-venda. Na Motoeste Honda, Johnata Grilo, gerente de Pós-Venda, corrobora que os clientes chegam mais informados, exigindo uma reestruturação das concessionárias, especialmente na área técnica. "A chegada dos eletrificados exige uma mudança importante em toda a estrutura. Não é apenas uma questão comercial", salienta. O preparo envolve capacitação técnica contínua, atualização de equipamentos de diagnóstico, softwares específicos e protocolos de segurança para sistemas de alta tensão. Grilo ressalta que a decisão de compra agora abrange todo o ecossistema de atendimento e suporte, onde a bateria é um componente chave para a fidelização do cliente. A construção de confiança em torno da tecnologia é fundamental, segundo Ítalo Rodrigo Andrade de Lima, gerente da Geely Redenção em Natal. "A confiança não é imposta, é construída através de evidências e infraestrutura local sólida", declara. Garantias extensas para a bateria são vistas como um facilitador para reduzir o receio do consumidor. Paralelamente, a indústria busca inovações como as baterias LFP (fosfato de ferro-lítio), que oferecem maior estabilidade térmica e menor custo, e formatos como a bateria Blade, da BYD, que otimiza espaço e segurança. Vanderson Oliveira, diretor regional da BYD Carmais, destaca a importância do test-drive: "Após conhecer melhor a tecnologia e realizar test-drives, grande parte dos clientes muda completamente sua percepção. Muitos consumidores se surpreendem positivamente com o desempenho, o conforto, o silêncio na condução e principalmente com a economia no uso diário", afirma. Para a GAC, representada pelo Grupo A. Cândido, a experiência do consumidor é mais valiosa que o discurso. Marcelo Vadalá, diretor do grupo responsável pelas operações da GAC Motors no Rio Grande do Norte, Paraíba e Alagoas, observa que o consumidor já não pergunta apenas "o que é um elétrico", mas sim "qual modelo vale a pena para a própria rotina". A confiança é construída pela capacidade da marca de responder a essa demanda individualizada e contextualizada.

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