VIOLÊNCIA LGTBQIAPN+ EM ALERTA

Atlas da Violência 2026 revela aumento contínuo de registros de violência contra a comunidade LGBTQIAPN+ no Brasil

Gráfico indicando aumento de registros de violência contra a comunidade LGBTQIAPN+ no Brasil.
Os dados do Atlas da Violência 2026 destacam a persistência e o crescimento dos registros de violência contra a comunidade LGBTQIAPN+ no Brasil, com atenção especial aos grupos mais jovens.

Levantamento do Ipea e FBSP aponta crescimento nos casos registrados contra homossexuais, bissexuais, transexuais e travestis em 2024, com maior concentração entre jovens. Dados reforçam a necessidade de políticas públicas direcionadas e ampliação do registro.

Os dados mais recentes do Atlas da Violência 2026 indicam que a violência contra pessoas LGBTQIAPN+ no Brasil segue em trajetória de crescimento. O levantamento, divulgado nesta terça-feira, 26/05/2026, pelo Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) em parceria com o FBSP (Fórum Brasileiro de Segurança Pública), demonstra um aumento nas notificações registradas em 2024, reforçando uma tendência de alta já observada na série histórica analisada.

O estudo revela que, entre pessoas homossexuais e bissexuais, foram registrados 10.250 casos de violência em 2024. Esse número representa um aumento de 5,5% em relação ao ano anterior. Comparado ao início da série histórica, o crescimento acumulado chega a 212,7%, evidenciando uma expansão expressiva das notificações ao longo da última década.

Especificamente, os registros contra pessoas homossexuais passaram de 7.043 para 7.378 entre 2023 e 2024, um acréscimo de 4,8%. Já os casos envolvendo pessoas bissexuais apresentaram um crescimento de 7,4%, com as notificações subindo de 2.675 para 2.872 no mesmo período.

O Atlas da Violência também identificou um aumento nos registros contra pessoas transexuais e travestis. Em 2024, contabilizaram-se 5.575 episódios de violência contra esse grupo, o que corresponde a uma alta de 2,6% na comparação anual.

Apesar do crescimento ser observado em diferentes segmentos da comunidade LGBTQIAPN+, os pesquisadores alertam que os padrões de vitimização não são uniformes. A gravidade e a frequência dos indicadores variam conforme a orientação sexual, identidade de gênero, faixa etária e o acesso a mecanismos de denúncia e acolhimento. Essa heterogeneidade exige uma análise cuidadosa dos dados agregados para compreender plenamente o fenômeno.

É fundamental ressaltar que os números apresentados no Atlas representam apenas os episódios que chegaram ao sistema de saúde. Os autores do estudo alertam que essa contagem não reflete a totalidade das situações de violência vividas pela população LGBTQIAPN+, um grupo que historicamente enfrenta barreiras significativas para denunciar e acessar serviços institucionais. A subnotificação é um ponto crítico na mensuração da violência.

A elevação nas notificações, segundo os pesquisadores, não implica necessariamente um crescimento proporcional da violência. Fatores como a ampliação da cobertura dos sistemas de informação, o fortalecimento das redes de atendimento e um maior número de pessoas se identificando como LGBTQIAPN+ podem influenciar os resultados. Contudo, a dimensão do crescimento registrado nos últimos anos sugere que o fenômeno não se explica apenas por melhorias estatísticas, demandando atenção especial para possíveis mudanças reais no padrão da violência direcionada a essa população.

O relatório também destaca uma concentração dos casos nas faixas etárias mais jovens. Entre pessoas dissidentes de gênero, os percentuais de vitimização são mais elevados entre 15 e 29 anos, mantendo-se altos até o início da vida adulta. Para homens transexuais, essa incidência é ainda mais acentuada entre 15 e 24 anos. Essa vulnerabilidade juvenil pode indicar maior exposição a conflitos familiares, escolares e sociais relacionados à orientação sexual e identidade de gênero, especialmente em fases de afirmação identitária e inserção social.

Os autores reconhecem as limitações dos dados, que podem não capturar integralmente a violência sofrida, especialmente por crianças menores de 10 anos, que não aparecem de forma específica. Mesmo assim, o acompanhamento desses indicadores ao longo do tempo é crucial para identificar mudanças nos padrões de violência e orientar políticas públicas mais eficazes. Ampliar a capacidade de registro e qualificar os dados são passos essenciais no enfrentamento da violência contra grupos historicamente vulnerabilizados.

O Atlas da Violência 2026 comemora uma década da parceria entre o Ipea e o FBSP, focada no monitoramento da violência no Brasil. O estudo baseou-se nos dados do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM) e do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), ambos do Ministério da Saúde (MS). A pesquisa alerta que, embora índices oficiais apontem queda na violência letal, há um aumento crítico na subnotificação de homicídios, o que também impacta a compreensão sobre outras formas de violência.

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