AVANÇOS NO TRATAMENTO ONCOLÓGICO
ASCO 2026 consolida avanços em tratamento de câncer, com foco em personalização e qualidade de vida
Reunião em Chicago apresentou pílula que dobra sobrevida no câncer de pâncreas, novas terapias para pulmão e próstata, e inovações em CAR-T, biópsia líquida e dieta. MedDiet reduz recorrência em câncer de mama em 76%.
A edição de 2026 da reunião anual da Asco (American Society of Clinical Oncology), realizada em Chicago entre 29 de maio e 2 de junho, consolidou três movimentos interdependentes: personalização, precisão molecular e qualidade de vida como desfecho clínico. Os especialistas reunidos apresentaram mais de 7 mil estudos científicos, moldando o futuro do tratamento oncológico.
Na prática, as abordagens terapêuticas deixam de seguir protocolos únicos para se tornarem individualizadas. As novas terapias visam identificar mutações ou proteínas específicas do tumor, otimizando o combate à doença. Além disso, o sucesso do tratamento agora é medido não apenas pela sobrevida, mas também pela preservação da qualidade de vida ao longo de toda a jornada do paciente, um reflexo do respeito à dignidade humana.
Pílula dobra sobrevida no câncer de pâncreas
Um marco histórico para uma das formas mais letais da doença foi apresentado com o estudo RASolute 302. A pesquisa avaliou o daraxonrasib em pacientes com câncer de pâncreas metastático já tratados, culminando em aplausos emocionados na plenária. A pílula diária atua diretamente sobre a proteína RAS, um alvo considerado intratável por décadas e alterado em mais de 90% dos casos da forma mais comum da doença.
Entre os pacientes tratados com daraxonrasib, metade viveu mais de 13 meses após iniciar o tratamento, o dobro do tempo observado com a quimioterapia convencional. Esse avanço representa uma esperança significativa para pacientes que antes tinham poucas opções.
Câncer de pulmão: dois estudos são destaque
Quando o câncer de pulmão é detectado cedo, o objetivo é evitar a recidiva. O estudo LIBRETTO-432 demonstrou que o selpercatinibe, administrado após cirurgia em pacientes com a alteração genética específica fusão RET, reduziu em 83% o risco de o câncer retornar ou de o paciente falecer. Outro estudo de fase III, o HARMONi-6, apresentou resultados históricos ao mostrar que o ivonescimabe, combinado com quimioterapia, reduziu em 34% o risco de morte em pacientes com câncer de pulmão escamoso avançado, comparado ao tratamento padrão.
CAR-T produzido dentro do organismo

A terapia CAR-T, que modifica geneticamente células de defesa para combater o tumor, costuma exigir coleta, envio a laboratórios especializados e reinfusão semanas depois. O novo estudo inMMyCAR propõe eliminar essas etapas, reprogramando as células de defesa diretamente dentro do corpo. Nos seis primeiros pacientes tratados, todos apresentaram resposta no primeiro mês, sem as complicações neurológicas associadas à técnica convencional.
Câncer de próstata: tratamento prévio à cirurgia pode reduzir metástases
O estudo PROTEUS testou uma abordagem inovadora para o câncer de próstata localizado de alto risco. Em vez de operar e depois decidir sobre tratamentos complementares, a pesquisa intensificou o tratamento antes da cirurgia. Pacientes receberam apalutamida combinada à terapia hormonal por seis meses antes e depois do procedimento cirúrgico.
Os resultados indicaram que mais pacientes chegaram à cirurgia sem células cancerosas detectáveis no tecido removido, sugerindo um controle prévio do tumor. Além disso, o risco de desenvolver metástases caiu 20%, e a necessidade de tratamentos adicionais foi adiada em mais de três anos, protegendo a qualidade de vida.
Dieta mediterrânea reduz risco de recidiva no câncer de mama

Considerado um divisor de águas na oncologia integrativa, o estudo MedDiet comprovou cientificamente os efeitos de uma intervenção combinando dieta mediterrânea de baixo índice glicêmico, caminhadas diárias e suplementação de vitamina D em mulheres com câncer de mama de estágio inicial. Pacientes com tumor hormônio-positivo que aderiram ao programa tiveram um risco 76% menor de recorrência. A intervenção também foi associada a maior perda de peso e redução da síndrome metabólica, fatores que influenciam o ambiente hormonal do tumor.
Exercício físico à distância melhora qualidade de vida em imunoterapia
Um estudo brasileiro acompanhou 70 pacientes com câncer avançado em imunoterapia, utilizando atividade física supervisionada por telemedicina durante 12 semanas. Os resultados revelaram melhora na qualidade de vida e redução de sintomas. Notavelmente, os participantes apresentaram menos medo de que a doença voltasse ou avançasse, um temor comum, mas pouco abordado nas consultas. Isso sugere a eficácia de intervenções de suporte à distância.
Telemedicina reduz internações no fim da vida
Outra pesquisa brasileira avaliou 116 pacientes com câncer em cuidados paliativos que realizaram consultas remotas nos últimos 30 dias de vida. O acompanhamento por telemedicina foi associado a menores taxas de hospitalização e menos internações em unidade de terapia intensiva. Esses pacientes também foram menos submetidos a intervenções invasivas sem benefício real, um indicador de respeito aos desejos do paciente e da família nesse momento delicado.
Biópsia líquida: uso cresce, mas interpretação desafia médicos

A biópsia líquida, exame de sangue que detecta fragmentos de DNA tumoral, está transformando o monitoramento e a escolha de tratamentos, especialmente para câncer de pulmão. Uma pesquisa latino-americana OMEGA ouviu 178 oncologistas, sendo 85% brasileiros. Embora 72,5% utilizem a tecnologia, apenas 30% se sentem confiantes para interpretar os resultados. O treinamento formal eleva o uso a 87,2%.
Teste genômico pode livrar pacientes de quimioterapia no câncer de mama
O estudo OPTIMA mostrou que mulheres com câncer de mama receptor hormonal positivo e HER2 negativo, mesmo em casos de alto risco, podem dispensar a quimioterapia com segurança. Um teste genômico de 50 genes indicou baixo risco molecular em um subgrupo, onde omitir a quimioterapia foi tão eficaz quanto mantê-la, poupando pacientes de efeitos colaterais sem comprometer a cura. Essa descoberta reforça a tendência da oncologia moderna de tratar menos quando o perfil molecular permite, mantendo a eficácia.
Ao final, o ASCO 2026 deixou uma mensagem clara: a oncologia moderna não se mede apenas pela sobrevida. Os novos estudos apontam para uma medicina mais precisa, que intervém menos quando possível e coloca o bem-estar físico e emocional do paciente no centro do tratamento — não como consequência, mas como parte integrante dele, valorizando a dignidade em cada etapa.
Gostou desta notícia?
Entre no nosso grupo do WhatsApp!
Receba as principais notícias em primeira mão, direto no seu celular. É grátis!
📲 Quero entrar no grupo
Comentários (0)
Deixe seu comentário