SAÚDE PÚBLICA EM RISCO

Anvisa facilita venda de anabolizantes e médicos lucram alto

Imagem mostra médicos driblando proibições e lucrando com implantes hormonais irregulares
Médicos driblam proibição e lucram com implantes hormonais irregulares

Mercado de implantes hormonais movimenta bilhões com brecha legal; pacientes pagam caro e sofrem complicações.

Um mercado bilionário de implantes hormonais manipulados, que explora uma brecha regulatória para prometer soluções estéticas e de saúde sem comprovação científica, segue operando no país, expondo milhares de pacientes a riscos graves. A situação alarmante se consolidou em novembro, quando a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) reverteu uma proibição total, permitindo a manipulação desses implantes para "outros usos terapêuticos". Contudo, esta flexibilização abriu caminho para que médicos, cursos e farmácias de manipulação vendam os dispositivos, com hormônios anabolizantes como gestrinona, oxandrolona e testosterona, para tratar condições como endometriose e Síndrome do Ovário Policístico (SOP), apesar da total ausência de evidências de eficácia. Em dezembro de 2025, diante da escalada do problema, o Ministério Público Federal (MPF) chegou a cobrar da Anvisa a proibição completa desses produtos, alertando para um grave problema de saúde pública.

A reportagem acessou notas fiscais, processos judiciais, ações do Ministério Público e relatos de vítimas que detalham como esse esquema, de altíssimo lucro, funciona. Para os profissionais envolvidos, o implante é adquirido por cerca de R$ 200 em farmácias de manipulação e revendido a pacientes por valores que partem de R$ 4 mil, podendo chegar a R$ 12 mil. Documentos revelam a compra de lotes com centenas de implantes padronizados – uma prática vedada para farmácias de manipulação – e casos de pacientes que sequer sabiam que estavam recebendo hormônios anabolizantes em seus corpos. Embora não existam dados oficiais rastreáveis sobre os implantes hormonais, especialistas indicam que eles impulsionaram o faturamento do mercado de farmácias de manipulação, que movimentou R$ 11,3 bilhões entre 2019 e 2023.

Diante desse cenário, o Conselho Federal de Medicina (CFM) avalia a existência de indícios de irregularidades e reforça que o uso de implantes fora das indicações médicas expõe pacientes a sérios riscos, fugindo dos parâmetros éticos da profissão. A seguir, aprofundamos nos detalhes desse esquema:

A brecha regulatória que sustenta um mercado bilionário

Historicamente, o país possui uma lacuna normativa que permitiu às farmácias manipularem os "pellets subcutâneos", pequenos cilindros sólidos que liberam hormônios após a introdução no corpo. Essa permissão inicial impulsionou o crescimento do mercado. Em resposta, a Anvisa chegou a proibir totalmente, mas, em novembro, reverteu a decisão após dezenas de recursos administrativos. A agência manteve a vedação para fins estéticos, ganho muscular ou desempenho esportivo, mas permitiu a manipulação em condições mais restritas para "outros usos terapêuticos".

Essa mudança estratégica permitiu que clínicas e médicos reposicionassem os implantes, apresentando-os como tratamento para condições médicas como Síndrome do Ovário Policístico, endometriose, lipedema e sintomas da menopausa, apesar da ausência de evidências robustas que comprovem sua eficácia para essas indicações. A brecha se aprofunda na regra que permite a manipulação de qualquer ingrediente farmacêutico ativo aprovado pela Anvisa, sem especificar a via de administração, abrindo espaço para distorções. Além dos hormônios anabolizantes, substâncias como ocitocina e metformina também são ofertadas em implantes, sem comprovação científica para os fins prometidos ou para essa via de administração, com relatos de eventos graves.

Produção em larga escala por farmácias de manipulação

A legislação determina que farmácias de manipulação produzam implantes apenas sob encomenda individualizada. Contudo, a investigação revelou indícios de produção em escala industrial. Registros da Elmeco, uma das maiores farmácias do país, mostram pedidos de 400 implantes padronizados de hormônios como gestrinona e testosterona, o que é uma prática irregular. Em novembro de 2025, o Ministério Público da Bahia solicitou à Justiça a interdição da Elmeco por irregularidades como a “manipulação e comercialização de medicamentos controlados sem a necessária prescrição médica”, apontando para a produção em massa.

A Elmeco afirma atuar "em estrita conformidade com as normas sanitárias vigentes", garantindo a manipulação individualizada sob prescrição específica e a rastreabilidade dos produtos. A empresa também declara apoiar o aperfeiçoamento das regras do setor.

CFM aponta indícios de conflito de interesse

Os dados revelam uma estrutura de mercado sustentada por três pilares: médicos prescritores, cursos que ensinam a aplicação e farmácias de manipulação que atuam como fornecedoras ou parceiras. Embora desde 2024 seja permitido que médicos sejam sócios de empresas, o representante do Conselho Federal de Medicina (CFM), Bruno Leandro de Souza, é enfático ao declarar que essa triangulação configura uma infração à ética médica, especialmente quando há benefício direto do médico pela venda ou divulgação dos produtos que ele próprio indica ao paciente.

Como funciona o sistema que une prescrição, cursos e venda

O funcionamento desse mercado veio à tona com o caso da Unikka, farmácia investigada pela Polícia Federal (PF) na Operação Slim, que apura a manipulação de canetas de tirzepatida. O médico Gabriel Almeida é apontado como sócio oculto da Unikka e investigado por oferecer cursos para outros médicos sobre como lucrar com a tirzepatida manipulada, vendida diretamente nos consultórios. A Unikka também atuava no mercado de implantes hormonais e Gabriel Almeida ministrava cursos sobre o tema. Pacientes relatam complicações graves e falta de assistência. A produção da farmácia foi suspensa em novembro de 2025, retomando atividades, mas com a manipulação de hormônios ainda suspensa. A Unikka Pharma nega irregularidades e afirma não atuar com implantes hormonais.

Outro nome de destaque nesse mercado é o médico Luiz Paulo Schaefer Pinto, que se apresenta como presidente da Sociedade Brasileira de Hormonologia, área não reconhecida pelo CFM. Luiz Paulo oferece cursos sobre implantes hormonais, muitos deles patrocinados pela Bio Meds, farmácia de manipulação ligada a uma holding da qual o médico faz parte. Além de formar novos prescritores, Luiz Paulo atende em seu consultório em Curitiba, com consultas a partir de R$ 2,5 mil, e ostenta uma vida de luxo em redes sociais. Em 2024, ele teve o registro médico suspenso por 30 dias pelo CFM por "divulgar informação sobre assunto médico de forma sensacionalista, promocional ou de conteúdo inverídico".

A Anvisa inspecionou a Bio Meds em março de 2026, identificando manipulação de medicamentos em grande volume sem pedido médico prévio e ausência de testes de controle de matérias-primas, irregularidades incompatíveis com uma farmácia de manipulação. A Bio Meds não respondeu aos questionamentos da reportagem. Médicos formados nesses treinamentos, como o ginecologista Bruno Jacob, também promovem a Bio Meds em suas redes.

Por que as mulheres são o principal alvo desse mercado

As redes sociais são a principal vitrine desse mercado, e as mulheres são o alvo central. Médicos associam alterações hormonais à perda de vitalidade, prometendo melhora na disposição, desempenho em treinos, libido e vida conjugal, com foco em testosterona – hormônio presente em baixas concentrações no organismo feminino. Profissionais que se autodenominam "hormonologistas" exploram esses níveis para diversas queixas de saúde e comportamento, sem respaldo científico.

Em cursos, como os ministrados por Lázaro Lourenço, que custam R$ 996, médicos são orientados a transformar inseguranças íntimas das mulheres em argumentos de venda, abordando temas como autoestima, vida sexual e medo de traição, e até mesmo a convencer parceiros a financiar o tratamento. Lourenço afirma que os cursos são técnico-científicos, baseados em evidências e focados na capacitação para reposição hormonal, e que trechos isolados podem ser interpretados fora de contexto. No entanto, o ginecologista Bruno Jacob, em vídeo, ironiza o baixo nível de testosterona em uma paciente, ligando-o a falta de lubrificação e orgasmo, e à incapacidade de ganho de massa muscular.

A Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo) e o CFM alertam que essa abordagem reduz queixas complexas a exames isolados, induzindo pacientes a tratamentos sem comprovação e caracterizando a "mercantilização da medicina".

Justiça condena médico por complicações de implante

Em um caso emblemático, a Justiça de São Paulo condenou o ginecologista Bruno Santiago Jacob e a clínica DBJ Saúde da Mulher Ltda. a indenizar a paciente Ana Karina Porto Oliveira. Em maio de 2022, Ana, que possui apenas um rim, recebeu um implante hormonal com gestrinona, metformina, estradiol, estriol e testosterona. Semanas depois, precisou ser internada na UTI com infarto renal associado à trombose e edema pulmonar agudo, necessitando de respirador. A perícia judicial estabeleceu "nexo causal" entre o implante e o grave quadro de saúde. Ana Karina relata que não foi informada sobre a presença de hormônios anabolizantes e que o médico negou assistência durante sua internação, alegando atender "400 pacientes por mês".

Jacob, por sua vez, defende que desfechos clínicos podem ser multifatoriais e que sua prática é pautada na individualização e segurança do paciente, respeitando as queixas e o desejo de cada um, e que a paciente não compareceu às consultas de retorno. Ele nega vínculo societário com farmácias de manipulação e remuneração pela prescrição da Bio Meds.

Por que esse esquema segue de pé?

Apesar da mobilização crescente de sociedades médicas como SBEM, Febrasgo e Abeso, que desde 2023 alertam sobre o "grave problema de saúde pública" e cobram medidas mais duras de controle da Anvisa e do Ministério da Saúde, o esquema persiste. Essas entidades apontam que os implantes são impulsionados por um forte apelo comercial, sem respaldo em evidências, sem dados consistentes de segurança e eficácia, podendo causar efeitos graves como infarto, AVC e trombose.

Especialistas como o endocrinologista Clayton Macedo relatam atender pacientes que, antes saudáveis, desenvolveram complicações graves, muitas vezes sem saber o que foi implantado. A ginecologista Zsuzsanna Di Bella, da Febrasgo, reforça que a testosterona, usada indiscriminadamente, afeta o coração, gerando riscos cardíacos importantes para mulheres saudáveis. A pressão chegou ao Ministério Público Federal (MPF) que, em dezembro de 2025, pediu a proibição total dos implantes hormonais manipulados, mas, até esta quarta-feira, 06 de maio de 2026, não havia resposta da Anvisa, que também não se pronunciou sobre a reportagem.

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