SEGURANÇA AÉREA EM RISCO
Anac foi alertada sobre falhas na Voepass anos antes de acidente em Vinhedo
Documentos revelam denúncias de um ex-inspetor sobre peças irregulares e perseguição. Polícia Federal apura conduta da agência reguladora.
A Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) recebeu alertas formais sobre graves falhas de manutenção na Voepass anos antes do acidente que vitimou 62 pessoas em Vinhedo (SP). Conforme reportagem exibida pelo Fantástico, denúncias apontavam para a utilização irregular de peças sem laudo de segurança e problemas críticos de aeronavegabilidade, questões que teriam sido ignoradas pela gestão do órgão regulador.
As irregularidades começaram a ser notificadas por um ex-inspetor a partir de 2019. Segundo os documentos, o servidor recomendou a suspensão da autorização de voo da MAP Linhas Aéreas, empresa que posteriormente se fundiu à Passaredo, formando a Voepass. Em vez de uma fiscalização rigorosa, o denunciante afirma ter sofrido perseguição interna, culminando em sua exoneração em 2025, após 16 anos de carreira na instituição.
A gravidade da denúncia ganha contornos de urgência diante da segurança dos passageiros. O ex-inspetor chegou a reportar o reaproveitamento de componentes de uma aeronave envolvida em um acidente em 2016, em Rondonópolis (Mato Grosso), prática que ele classificou como ilegal. Apesar dos e-mails enviados a órgãos internacionais como a FAA e a EASA, a Anac desautorizou o agente perante essas entidades e moveu um processo por insubordinação contra ele em 2023.
A investigação da Polícia Federal, concluída na semana passada, trouxe à tona novos elementos. Um mecânico de pista relatou suspeitas de pagamento de propina pela Voepass a agentes da Anac, sugerindo que o rigor na fiscalização era substituído por favores indevidos para manter aeronaves em operação. Esse depoimento aponta que funcionários que buscavam cumprir normas de segurança eram retirados de suas funções sob alegação de criar dificuldades operacionais.
Embora a PF tenha indiciado 16 pessoas relacionadas ao acidente, nenhum servidor da Anac foi incluído no indiciamento inicial. No entanto, o inquérito será remetido à Procuradoria da República no Distrito Federal (MPF) para apuração de possível improbidade administrativa. Em resposta, a Anac informou que instaurará um processo interno para verificar a responsabilidade de seus servidores, enquanto a Voepass declarou à TV Globo que a segurança permanece sendo sua prioridade.
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