INOVAÇÃO REGIONAL GLOBAL
América Latina pode liderar avanços na saúde mundial, dizem cientistas
Evento "Vozes da Ciência Latino-americana" destaca ascensão regional; dados indicam crescimento de 44% no número de pesquisadores em uma década.
Especialistas e instituições de renome global, reunidos nesta quarta-feira, 06 de maio de 2026, no evento "Vozes da Ciência Latino-americana" em São Paulo, reiteraram a crescente convicção de que a América Latina detém um potencial transformador para oferecer soluções inovadoras aos mais prementes desafios globais de saúde. Esta perspectiva emerge não apenas da sua rica diversidade genética e ambiental, mas também do notável aumento no número de pesquisadores na última década, indicando um caminho crucial para a criação de avanços médicos mais equitativos e eficazes para o mundo.
Historicamente, a região já demonstrou sua capacidade. No início do século 20, o médico e pesquisador brasileiro Vital Brazil revolucionou a medicina ao desenvolver o primeiro antídoto específico contra venenos de diferentes espécies de serpentes. Seu trabalho pioneiro no Instituto Butantan, em São Paulo, teve impacto imediato no Brasil e no mundo, resultando em uma redução drástica na mortalidade por acidentes ofídicos em diversos países. Esta descoberta fundamental também abriu caminho para pesquisas sobre imunidade, produção de vacinas e terapias baseadas em anticorpos, consolidando um dos primeiros exemplos de como a América Latina pode ser o epicentro de soluções para desafios globais.
Desde a época de Vital Brazil, a ciência mundial avançou, embora de forma assimétrica. A quantidade de pesquisadores nos países latino-americanos cresceu 44% entre 2014 e 2023, saltando de 297 mil para aproximadamente 429 mil pessoas, conforme o relatório El Estado de la Ciencia 2025, elaborado pela Organização dos Estados Americanos (OEA) e pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). Na prática, pelo menos um em cada mil trabalhadores na região contribui hoje para a produção científica.
Comparativamente a potências como China, Estados Unidos e União Europeia, esses números ainda são relativamente baixos. Na área da saúde, por exemplo, países latinos e caribenhos respondem por apenas 0,8% de toda a literatura divulgada entre 1980 e 2024 sobre cuidados com a atenção primária, segundo estudo publicado em 2025 na revista Atención Primária. Contudo, essa menor participação não diminui a relevância das pesquisas locais. “A ciência médica é bem forte na América Latina. Mantemos bons recursos humanos, especialmente graças às universidades públicas, que oferecem formação robusta e qualificada a médicos, docentes e biotecnólogos”, destaca a bióloga Juliana Cassataro, pesquisadora do Consejo Nacional de Investigaciones Científicas y Técnicas (Conicet), na Argentina.
No Brasil, por exemplo, há um forte investimento em pesquisas focadas no câncer de mama e de colo do útero, com programas de rastreamento e prevenção que visam reduzir a mortalidade feminina. O México, por sua vez, concentra parte significativa de sua produção científica em obesidade e transtornos nutricionais, refletindo a preocupação com o impacto da má alimentação e do sobrepeso na população. Já a Colômbia se destaca pela integração entre universidades e políticas nacionais de saúde, estabelecendo centros comunitários e fortalecendo a formação de profissionais dedicados à atenção primária.
Segundo um artigo publicado em 2018 na revista Scientometrics, essa aposta em projetos com foco nas necessidades regionais por profissionais da América Latina evidencia uma “especialização inteligente”. Para os autores, investir no estudo de tópicos que dialogam diretamente com os desafios de saúde locais, mesmo que não sejam prioridade para o resto do mundo, pode ser o caminho para ampliar a visibilidade da produção científica latino-americana.
Contribuições regionais à saúde mundial
Um dos grandes diferenciais da América Latina é sua intrínseca heterogeneidade. “A diversidade genética, comportamental e ambiental da região nos permite acessar recursos únicos, e seu estudo pode contribuir para a construção de uma ciência de impacto global”, observa o imunologista Luiz Vicente Rizzo, diretor de Pesquisa do Einstein Hospital Israelita. Ele enfatiza: “Pesquisas locais são fundamentais, pois, se não as fizermos, ninguém mais fará. Mas, quando falamos de impacto mundial, a diversidade ganha ainda mais valor.”
De acordo com um estudo publicado em 2016 na revista Nature, cerca de 81% dos participantes de pesquisas com marcadores genéticos de doenças são de ascendência europeia, o que gera um forte viés populacional nos resultados. Essa sub-representação de outros grupos étnicos e raciais cria um desequilíbrio que limita a eficácia e a equidade dos avanços da medicina de precisão. “Devemos focar nossos esforços para que a região não seja apenas um lugar de coleta, mas, sim, um espaço que contribua ativamente com a ciência global”, avalia Rizzo.
O tema foi amplamente debatido durante o evento Vozes da Ciência Latino-americana, promovido pelo Einstein nesta quarta-feira, 06 de maio de 2026, em São Paulo. “O Brasil tem uma população multiétnica que falta nos grandes estudos originados na Europa e nos Estados Unidos, onde a maioria são brancos e do Hemisfério Norte”, afirmou no encontro o médico cardiologista Peter Libby, da Universidade Harvard, nos Estados Unidos. “Nosso principal ativo somos nós mesmos, nossa população diversa, plural e enorme”, complementou o médico Pedro Lemos, diretor de Cardiologia do Einstein. As oportunidades, contudo, transcendem as fronteiras brasileiras.
Inteligência artificial é um caminho
As soluções baseadas em inteligência artificial (IA) para a saúde representam uma promissora área de exploração compartilhada na região. Para a cientista da computação Nayat Sanchez-Pi, CEO da organização de pesquisa em ciências digitais Fundación Inria Chile, é possível alavancar a IA em domínios onde a América Latina já possui vantagens comparativas, desenvolvendo modelos mais eficientes, adotando sistemas autônomos e fortalecendo a governança digital.
“Há oportunidades a serem aproveitadas na região, alinhadas às tendências globais”, defende Sanchez-Pi. Entre elas, destaca-se a “IA frugal”, que oferece soluções mais simples e acessíveis, funcionais mesmo com infraestrutura tecnológica limitada. Outra abordagem é a “IA agênica”, composta por sistemas capazes de executar tarefas de forma autônoma, como organizar dados ou apoiar decisões médicas, um recurso valioso para países com carência de profissionais ou recursos.
Na prática, essas tecnologias já transformam o dia a dia da saúde. Sistemas inteligentes auxiliam médicos a identificar doenças precocemente, analisar exames com maior rapidez e selecionar tratamentos mais adequados para cada paciente. Na oncologia, por exemplo, a IA apoia a detecção precoce de tumores; na cardiologia, agiliza a análise de exames do coração; e na radiologia, atua como suporte na leitura de imagens médicas.
Nesse cenário, o desafio crucial é assegurar que as tecnologias sejam desenvolvidas com base em dados locais. “Modelos treinados com dados de países do Hemisfério Norte não se aplicam bem às nossas realidades”, enfatiza a CEO da Fundación Inria Chile. Para otimizar sua eficácia, a IA precisa considerar as características específicas das populações latino-americanas.
Ao compartilhar conhecimento e desenvolver soluções em conjunto, a América Latina pode não apenas acompanhar essa transformação digital, mas também influenciar ativamente o futuro da inteligência artificial. Essa premissa se estende a outras áreas da saúde e da ciência.
Na última década, houve progressos nas colaborações entre os países latino-americanos, especialmente em estudos clínicos em estágios finais. Contudo, na pesquisa translacional e experimental, mais próxima da pesquisa básica, a interação ainda é limitada. “Se conseguíssemos compartilhar melhor os recursos de forma regional, poderíamos alavancar muito mais rápido a contribuição da América Latina para a ciência global”, conclui Luiz Vicente Rizzo.
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