GAL COSTA PÓSTUMA

Álbum póstumo de Gal Costa eterniza show de voz e violão com cantos que 'parecem vir do céu'

Capa do álbum 'Gal Costa – Ao vivo no Teatro Castro Alves'
Capa do álbum 'Gal Costa – Ao vivo no Teatro Castro Alves', de Gal Costa

Disco com 24 faixas gravadas em 2003 em Salvador (BA) lança luz sobre a obra da cantora, falecida em 2022. Voz e violão destacam a precisão e a emoção de sua interpretação.

Um álbum póstumo, lançado nesta sexta-feira, 22 de maio, resgata um show intimista de voz e violão de Gal Costa. A decisão de eternizar a apresentação, gravada em 2003 no Teatro Castro Alves, em Salvador (BA), ganha especial relevância após o falecimento da cantora em 2022. A obra, que reúne 24 músicas, foi concebida em um momento em que críticos viam o show como um trabalho de menor expressão, mas a ausência de Maria da Graça Costa Penna Burgos, para sempre sentida, confere agora uma nova dimensão e grandeza a estas gravações.

A produção, assinada por Marco Mazzola e com masterização de Carlos Freitas, conta com a parceria das gravadoras Biscoito Fino e MZA Music. O áudio, descrito como luminoso, captura a essência da voz cristalina de Gal Costa. O repertório se inicia com "Coraçãozinho" e "Minha voz, minha vida", de Caetano Veloso, canções que abordam a arte de cantar e que abriram o show com a interpretação a capella de "Coraçãozinho". Essa escolha inicial já sinaliza a profundidade temática que permeia o álbum.

Em seguida, Gal transita com fluidez para "Eu vim da Bahia", de Gilberto Gil, traçando um percurso musical que remete às suas origens e à influência seminal de "Chega de saudade", de Antonio Carlos Jobim e Vinicius de Moraes, na voz de João Gilberto. O público, incentivado por Gal, entoa o samba em coro, reforçando a conexão entre a artista e sua audiência, evidenciando que a organização do roteiro não era aleatória, mas sim cuidadosamente pensada para conduzir a narrativa.

À medida que a gravação avança, a sensação é de que a imensa voz de Gal Costa parecia emanar de um plano superior, como a própria cantora sugeriu em "Coraçãozinho", evocando uma luz celestial. Essa atmosfera é potencializada pela melancólica "Onde Deus possa me ouvir", de Vander Lee, apresentada em um registro mais apropriado do que o da versão original do álbum "Gal bossa tropical".

Acompanhada pelo violão de Luiz Meira, que prioriza a técnica a serviço da emoção, Gal revisita clássicos de sua carreira como "Azul", "Folhetim", "Força estranha", "Tigresa" e "Vapor barato". O álbum também apresenta canções menos óbvias em seu repertório, como a balada "Epitáfio", de Sérgio Britto, e "Olha", de Roberto Carlos e Erasmo Carlos, que ganha uma nova sedução na voz de Gal.

O formato minimalista de voz e violão realça a precisão vocal de Gal Costa. A maciez com que ela interpreta sambas como "Camisa amarela" e "Aquarela do Brasil", de Ary Barroso, evidenciada pela habilidade de Luiz Meira em simular a batucada com o violão, demonstra a maestria da artista. A gravação ao vivo preserva as falas de Gal, incluindo a apresentação de "Mulher eu sei", de Chico César, uma das 24 faixas inédita em sua discografia.

Em um diálogo direto com o público, Gal expressa seu propósito artístico: "Meu canto não é para isso. Meu canto é para levar alegria, paz, informação, tranquilidade, luz – principalmente luz – para todas as pessoas". Essa declaração ressoa em interpretações vibrantes como a do samba "É luxo só", de Ary Barroso e Luiz Peixoto, e "Cada macaco no seu galho", que encerrou o show.

O bis incluiu o sucesso radiofônico "Socorro", de Arnaldo Antunes e Alice Ruiz, e o samba-canção "Sábado em Copacabana", de Dorival Caymmi e Carlos Guinle, que seria gravado por Gal no ano seguinte. A apresentação culminou com "Amor em paz", de Antonio Carlos Jobim e Vinicius de Moraes, um clássico da bossa nova que ela ouvia intensamente na adolescência, na voz de João Gilberto.

Ao final, ao ouvir Gal Costa entoar canções que renegam o sofrimento amoroso, é impossível não sentir a paz e a luz irradiadas por sua voz. Um canto que, pela sua beleza sobrenatural e imortal, parecia vir de um lugar sagrado, da imensidão do universo, imortalizando o legado de Gal Costa.

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