RACISMO ESTRUTURAL MATA

Alagoas registra maior risco de assassinato para pessoas negras no Brasil

Representação visual do Atlas da Violência
Brasil registra menor número de homicídios da série histórica

Atlas da Violência 2026 aponta que indivíduos negros têm 23,3 vezes mais chances de serem vítimas de homicídio em Alagoas do que pessoas não negras.

Pessoas negras enfrentam o maior risco de serem assassinadas em Alagoas, conforme revela o Atlas da Violência 2026. A pesquisa, divulgada nesta terça-feira (26), é fruto de uma colaboração entre o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP). O estudo demonstra um alarmante índice de desigualdade racial no estado, com indivíduos negros apresentando 23,3 vezes mais chances de serem vítimas de homicídio em comparação com pessoas não negras. Este cenário coloca Alagoas na vanguarda da disparidade racial no país no que diz respeito à violência letal.

Os dados detalham que em 2024, Alagoas registrou 1.121 homicídios de pessoas negras, resultando em uma taxa de 48,9 mortes a cada 100 mil habitantes. Em contraste, para pessoas não negras, o número foi de 19 homicídios, com uma taxa de 2,1 por 100 mil. Essa gritante diferença sublinha a vulnerabilidade específica enfrentada pela população negra no estado. Amapá e Sergipe também figuram em posições preocupantes, com riscos de homicídio 16,7 e 6,8 vezes maiores para pessoas negras, respectivamente.

'A violência tem cor, território e classe social', afirma Sandra Gomes, advogada criminalista e fundadora do movimento Advogadas Negras de Alagoas. Ela ressalta que os números apresentados pelo Atlas da Violência 2026 não são novidade para os movimentos sociais, mas sim a confirmação de uma realidade denunciada há décadas. Segundo Gomes, a juventude negra é a principal vítima da ausência de políticas públicas eficazes e do racismo estrutural, tornando suas vidas mais vulneráveis e menos protegidas pelo Estado.

Valnice Gomes, integrante do Centro de Cultura e Estudos Étnicos Anajô, reforça que o cenário é um reflexo direto da desigualdade histórica e do que ela descreve como um 'genocídio da população negra', uma questão já alvo de denúncias em fóruns internacionais. Ela aponta que a combinação da negritude com a pobreza, especialmente nas periferias e favelas, cria uma população altamente vulnerabilizada. Valnice critica, ainda, a disparidade na atuação do Estado, observando que a segurança pública oferecida a bairros periféricos, majoritariamente negros, difere significativamente daquela destinada às áreas de elite.

O Atlas da Violência 2026 também destaca que jovens continuam sendo as principais vítimas de violência letal em Alagoas. Em 2024, o estado contabilizou 637 homicídios de pessoas entre 15 e 29 anos, uma taxa de 82,1 mortes por 100 mil habitantes. Entre as mulheres negras, o estado registrou 70 homicídios em 2024, com uma taxa de 5,9 por 100 mil mulheres negras, enquanto entre mulheres não negras houve um homicídio no mesmo período. O levantamento estima que Alagoas teve 1.277 homicídios em 2024, incluindo mortes violentas de causa indeterminada, atingindo uma taxa de 39,8 mortes por 100 mil habitantes, a quarta maior do país. A Secretaria de Segurança Pública de Alagoas foi contatada para comentar os dados e aguarda retorno.

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