CULTURA E CRENÇAS

A trajetória do café: do estigma do 'vinho do diabo' ao sucesso literário

Xícara de café sobre uma mesa de madeira próxima a um livro.
O café simboliza, para muitos, um momento de pausa e conexão pessoal no cotidiano. Foto: GETTY IMAGES.

De bebida demonizada a metáfora de acolhimento em best-sellers religiosos, o café reflete mudanças históricas na sociedade e no mercado editorial brasileiro.

O mercado editorial brasileiro vive um fenômeno singular onde a espiritualidade encontra o cotidiano, consolidando livros de mensagens diárias como líderes de vendas. Nesta terça-feira, 14/07/2026, analisa-se como o título "Café com Deus Pai", do pastor Junior Rostirola, impulsionou uma tendência que utiliza a bebida como símbolo de pausa, conexão e reflexão espiritual, transcendendo denominações religiosas.

A força da estratégia reside na carga afetiva do cafezinho, visto culturalmente no Brasil como um ritual de intimidade e acolhimento. Ao utilizar essa imagem, autores propõem que o leitor desacelere o ritmo frenético da vida moderna para um momento de introspecção. O impacto dessa escolha vai além das livrarias, atingindo leitores que buscam um refúgio de paz em meio às demandas diárias, reforçando a importância do autocuidado espiritual.

Historicamente, a relação entre religião e café foi conflituosa. A gastrônoma Camila Landi, da Universidade Presbiteriana Mackenzie, recorda que a bebida enfrentou resistências severas após chegar à Europa, no século 16. Considerada por setores do clero católico como o "vinho do diabo" devido às suas propriedades estimulantes, a bebida só teria sido legitimada após um suposto gesto do papa Clemente 8º, que a provou e a aprovou, permitindo sua integração no cotidiano ocidental.

Atualmente, a visão sobre o consumo varia. Enquanto denominações como a Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias e a Igreja Adventista do Sétimo Dia recomendam a abstinência por questões de saúde e disciplina física — compreendendo o corpo como um templo —, essas mesmas instituições reconhecem o valor da metáfora do "café" em títulos editoriais. A estratégia literária é vista como uma forma criativa de convidar o público à leitura bíblica e à oração, mesmo por parte de quem não consome a bebida.

Para especialistas em marketing literário, o sucesso do gênero comprova que a audiência busca mais do que informação: busca experiência e proximidade. Seja através de obras focadas no cristianismo ou em outras tradições, como o livro "Café com Exu", de Rubens Oliveira, o mercado confirma que o conceito de "pausa para reflexão" é uma necessidade humana universal em tempos de excesso de dados e urgência constante.

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