RESILIÊNCIA E REERGUIMENTO

A reconstrução de João Câmara após o maior terremoto registrado no RN

Praça da Igreja Matriz na cidade de João Câmara, Rio Grande do Norte.
Praça da Igreja Matriz, em João Câmara — Foto: Bruno Vital/g1

Quarenta anos após o abalo sísmico que forçou a saída de milhares, a cidade superou o medo, recuperou sua economia e hoje lidera o setor de energia eólica.

João Câmara conseguiu reverter o cenário de abandono vivido a partir de 30 de novembro de 1986, quando um terremoto de magnitude 5.1 atingiu a cidade e forçou a evasão de aproximadamente 10 mil moradores. A decisão de reconstruir a infraestrutura urbana e retomar a dignidade dos habitantes foi selada pelo empenho conjunto entre o poder público, lideranças comunitárias e a resiliência de famílias que, mesmo após migrarem por medo, escolheram retornar para reconstruir suas vidas.

A crise sísmica, que se estendeu por anos com tremores recorrentes, transformou a rotina da população em um desafio constante de sobrevivência. Maria de Lourdes Vital, hoje aos 85 anos, personifica essa trajetória. Em novembro de 1986, ela deixou a cidade com o marido e os 11 filhos, vendendo seu patrimônio por valores irrisórios apenas para escapar dos abalos. Anos depois, o retorno foi marcado pelo esforço de erguer um novo lar, trabalhando em feiras livres, provando que o laço afetivo com a terra foi mais forte que o trauma geológico.

O processo de reconstrução física exigiu ações imediatas já a partir de 1987. O ex-prefeito Ribamar Leite recorda que a cidade dependia de auxílio emergencial, com o governo estadual e o Exército Brasileiro liderando a recuperação de cerca de 1,2 mil moradias. Até estruturas inusitadas, como o Circo da Cultura, foram adaptadas para servir como hospital de campanha após as unidades de saúde tradicionais serem condenadas.

Fundamental para manter a coesão social foi a presença do monsenhor Luiz Lucena Dias. Para o coordenador do Laboratório Sismológico da UFRN, Aderson Farias do Nascimento, o religioso atuou como um amálgama, transmitindo segurança à população e servindo de ponte entre as famílias e as orientações científicas da época. Sua liderança foi decisiva para que a cidade não fosse desativada.

Atualmente, o cenário é de prosperidade. Com 34,8 mil habitantes, João Câmara consolidou-se como um polo de energia eólica no Rio Grande do Norte, contando com 29 parques eólicos e 327 aerogeradores. A localização, que antes gerava apreensão, tornou-se um ativo econômico vital para o desenvolvimento sustentável da região.

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