CULPA DA VÍTIMA
61% culpam vítimas de violência por escolherem parceiros, revela pesquisa Datafolha
Levantamento encomendado pelo Movimento Mulher 360 aponta que percepção é maior entre homens e pessoas com menor escolaridade. Dados revelam persistência da responsabilidade sobre quem sofre agressão.
Pesquisa Datafolha aponta para culpabilização de mulheres em casos de violência
Uma pesquisa recente divulgada nesta segunda-feira, 01/06/2026, revela um dado alarmante sobre a percepção social da violência contra a mulher: 61% das pessoas entrevistadas concordam que os casos de agressão são, muitas vezes, resultado das escolhas equivocadas das vítimas ao selecionar seus parceiros. Os dados, coletados pelo Datafolha a pedido do Movimento Mulher 360, trazem à tona a persistência da mentalidade que transfere a responsabilidade pela violência para quem a sofre, em vez de focar no agressor.
O levantamento ouviu 2.004 cidadãos com mais de 16 anos e evidenciou que essa crença é mais acentuada entre o público masculino, com 65% dos homens concordando com a afirmativa. Entre as mulheres, o índice, embora menor, ainda é expressivo, atingindo 58%. Essa tendência de culpar a vítima por sua situação amorosa é um reflexo preocupante de como a sociedade ainda lida com a questão da violência de gênero.
Escolaridade e percepção da culpa
A pesquisa também desmistificou a relação entre nível de escolaridade e a concordância com a culpabilização das vítimas. O estudo indica que 73% das pessoas com ensino fundamental acreditam que a culpa recai sobre a vítima. Esse percentual diminui para 61% entre aqueles com ensino médio e cai para 48% entre os que possuem ensino superior. Essa disparidade sugere que o acesso à informação e a diferentes perspectivas de mundo podem influenciar a maneira como a violência é compreendida.
O próprio estudo destaca as consequências dessa percepção: "Essa percepção reforça como a responsabilidade pela violência ainda é frequentemente transferida às vítimas, e não aos agressores, o que pode contribuir para o silêncio, o medo e a permanência em relações violentas".
Detalhes sobre as respostas e aprofundamento da violência
As respostas sobre a culpabilização foram categorizadas em cinco níveis, de "discorda totalmente" a "concorda totalmente". Observou-se uma diferença notável entre homens e mulheres nos extremos: 44% dos homens "concordam totalmente", enquanto 25% das mulheres "discordam totalmente" da afirmativa. As demais categorias apresentaram porcentagens semelhantes ou equiparadas.
Um módulo de autopreenchimento do questionário, respondido por 84% dos participantes, detalhou a experiência de violência. Em média, cada mulher que relatou ter sofrido violência já passou por três situações de agressão. As formas mais comuns de violência incluem insultos ou xingamentos (59%), ameaças de agressão física (45%) e perseguição ou intimidação (43%). Relatos de violência sexual também foram significativos, com 38% das mulheres afirmando ter vivenciado situações de toque ou agarrões não consentidos. Uma em cada quatro mulheres sofreu agressão física severa, como espancamento ou tentativa de enforcamento, e 22% foram ameaçadas com armas.
O papel das instituições e o pós-agressão
A pesquisa abordou também as atitudes das vítimas após os episódios de agressão. Surpreendentemente, 37% das mulheres que sofreram agressões de maior impacto no último ano declararam não ter tomado nenhuma providência. A falta de confiança nas instituições e na eficácia das leis aparece como um fator crucial nesse cenário. Apenas 19% das mulheres confiam plenamente na polícia para sua proteção, um número que contrasta com os 31% entre os homens. Similarmente, 55% dos homens consideram as leis de proteção à mulher eficientes, enquanto o mesmo percentual de mulheres expressa desconfiança sobre sua aplicabilidade.
O estudo conclui que "Diante do medo, do sentimento de culpa, da falta de amparo e da desconfiança sobre possíveis consequências, muitas mulheres permanecem em situações de abuso e vulnerabilidade". A pesquisa foi realizada entre 6 e 11 de abril de 2026, com margem de erro de 2 pontos percentuais e nível de confiança de 95%.
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