DISPUTA NO JUDICIÁRIO
Juiz indígena relata perseguição e violência institucional no TJSC
Magistrado afastado enfrenta processo disciplinar e acusações de conduta; defesa aponta viés etno-ideológico nas investigações.
O juiz Yves Guachala, atualmente afastado de suas funções no Tribunal de Justiça de Santa Catarina (TJSC), denunciou um cenário de perseguição e preconceito durante o curso de um processo disciplinar instaurado pela Corregedoria do órgão. O magistrado, que ingressou na carreira pelo sistema de cotas, afirma ser vítima de violência institucional e discriminação em razão de sua origem e da natureza garantista de suas decisões na comarca de Catanduvas.
Os depoimentos colhidos durante a investigação, que apura supostas irregularidades administrativas, contêm críticas à vida pessoal, à aparência e à atuação técnica de Guachala. Em uma das gravações, uma advogada chega a associar a postura do juiz a um comportamento que ela classifica como "benevolente com o tráfico", utilizando termos depreciativos como "traficante novo na cidade".
O magistrado rebate as alegações, sustentando que as críticas ao mérito de suas sentenças deveriam ser combatidas por meio de recursos processuais, e não através de representações éticas. "Sequer havia muitos processos de tráfico em Catanduvas. O único que me lembro era um caso de absolvição por uso de drogas para consumo próprio, baseado em entendimento do STF", esclareceu Guachala.
A defesa do magistrado, apoiada pela Apib, sustenta que a medida administrativa possui motivação etno-ideológica. Guachala relata que, após 15 anos de trajetória jurídica bem-sucedida, o sonho de atuar na magistratura — conquistado após estudos em escola pública e ProUni — tornou-se um processo de desgaste profundo. Atualmente, o juiz corre risco de demissão, o que inviabilizaria sua permanência em cargos públicos de carreira jurídica pelos próximos cinco anos.
"Desejam me retirar do cargo, talvez por achar que sou incapaz por ser cotista e por incômodo com decisões garantistas", desabafou o juiz. Ele alega que a Corregedoria permitiu a disseminação de boatos e acusações sem provas, configurando um ambiente hostil que esvaziou sua produtividade e comprometeu sua dignidade.
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