"Programa de atraso do crescimento", escreve Rogério Marinho sobre novo PAC

"Programa de atraso do crescimento", escreve Rogério Marinho sobre novo PAC
NOVA VERSÃO DO PROGRAMA DE INVESTIMENTOS EM INFRAESTRUTURA REPETE ERROS DO PASSADO E INCENTIVA EXCESSO DE GASTO PÚBLICO, ESCREVE ROGÉRIO MARINHO. FOTO: AGÊNCIA SENADO
NOVA VERSÃO DO PROGRAMA DE INVESTIMENTOS EM INFRAESTRUTURA REPETE ERROS DO PASSADO E INCENTIVA EXCESSO DE GASTO PÚBLICO, ESCREVE ROGÉRIO MARINHO. FOTO: AGÊNCIA SENADO

Nova versão do programa de investimentos em infraestrutura repete erros do passado e incentiva excesso de gasto público, escreve Rogério Marinho

Frise-se que o crescimento de uma nação passa necessariamente pelo desenvolvimento da infraestrutura local em todas as suas vertentes. Entre elas estão a rodoviária, a ferroviária, a portuária, a aeroportuária, de abastecimento de água, de tratamento de esgoto, a macrodrenagem, de mobilidade urbana em médias e grandes cidades, ou aquela relacionada à urbanização de assentamentos precários.

Ocorre que Lula apronta mais uma “lulice” com o povo brasileiro e resolveu reeditar o programa que se tornou uma das grandes marcas negativas de seu governo. Não por acaso, o PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) tinha como “gerentona” —nas palavras que os próprios petistas usavam à época— a ex-presidente e então ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff. Que dupla!

O discurso do governo é de que o Brasil voltou. Concordamos, voltou ao passado e ao prenúncio de uma nova catástrofe.

Não é por acaso que o PAC é um dos personagens centrais de todo o mal e da crise que assolou o país, pois carrega tatuada a característica fundamental do lulopetismo: o gasto desenfreado de recursos dos orçamentos da União, sem qualquer tipo de planejamento, com critérios iminentemente políticos, com criação de exceções normativas e sem a devida focalização.

Ora, obras de infraestrutura configuram investimentos plurianuais, que de acordo com o decreto nº 93.872, de 1986, devem ter suas dotações empenhadas de forma parcial, em cada ano, à medida da necessidade para a execução dos contratos. Trata-se de um procedimento desejável e saudável, na medida que não faz sentido sobrecarregar as inscrições em restos a pagar da União, sem que haja a correspondente necessidade de desembolso dos recursos para a execução das obras.

Ainda assim, os restos a pagar foram sobrecarregados, pois o programa se baseou em repasses de recursos orçamentários a entes públicos, que, historicamente, demonstram baixa capacidade institucional para a elaboração de bons projetos e a realização de grandes procedimentos licitatórios.

O resultado disso foram empreendimentos lentos, que sofreram com paralisação, bem como inúmeros casos de sobrepreço e superfaturamento apontados reiteradamente pelo Tribunal de Contas da União e pela Controladoria-Geral da União.

Quem não acompanhou a história pode não se lembrar da regra de cancelamento automático, em 3 anos, de restos a pagar não liquidados. A legislação vigorava desde 1986 e minimizaria a questão aqui suscitada, bastando o correto acompanhamento dos contratos e readequação das metas.

Porém, em 2011, o já consolidado decreto foi alterado, tornando incanceláveis as despesas do PAC, possibilitando, na prática, contratos de vigência infinita. Ou seja, premia a falta de gestão dos entes públicos que recebem os repasses de recursos e, também, a falta de gerência e diligência de Brasília para a solução dos problemas.

Para ilustrar, o infográfico abaixo demonstra a execução orçamentária e financeira do PAC de 2007 a 2018, considerando apenas as despesas do programa, conforme dados obtidos do Siop (Sistema Integrado de Planejamento e Orçamento), mantido pelo Ministério do Planejamento e Orçamento do governo Federal.

Ao tratar de valores absolutos e acumulados, o infográfico nos permite tirar as seguintes conclusões:

O contexto de grande volume de recursos orçamentários permitiu a contratação de ideias em detrimento de projetos; não foi celebrado o total de contratos prometidos, na medida em que em todos os anos observamos sobra de orçamento em relação ao alocado pela respectiva lei orçamentária; e o modelo principal de execução, qual seja, o repasse de recursos orçamentários a entes públicos, se mostrou ineficiente, como se depreende do descompasso entre execução orçamentária e financeira, que se acentuou ao longo dos anos.

Em dezembro de 2018, portanto, havia mais de R$ 43 bilhões pendentes de pagamento. Alguns até poderiam, equivocadamente, concluir que o número é positivo, dado o valor absoluto dos empenhos realizados no período em análise. Neste ponto, contudo, precisamos registrar o tempo médio de vigência da carteira de empreendimentos, que é de 13 anos, tempo que não é razoável mesmo para as mais complexas intervenções de engenharia.

É sempre bom lembrar, outrossim, o que ocorre com o país logo depois das eleições de 2014. Depois de anos de gastos e comprometimento orçamentário desenfreados sem as respectivas receitas correspondentes, a União passou a dar calotes e desonrar contratos vigentes. Atrasou e paralisou obras, recorrendo a bancos públicos de forma ilegal e culminando em uma das maiores crises da história do Brasil.

Do 2º trimestre de 2014 a dezembro de 2016, foram 3 milhões de empregos formais destruídos e uma retração do PIB (Produto Interno Bruto) em 8%, resultados piores até mesmo do que os que a pandemia promoveu em nossa sociedade.

Coincidência ou não, a LDO (Lei de Diretrizes Orçamentárias) para o exercício de 2014 permitiu que o governo deduzisse da meta de resultado primário as despesas do PAC. Mais uma exceção. Mais uma demonstração do compromisso que o PT agora reedita: gastar, gastar e gastar, como se não houvesse amanhã. Ora, qual o (bom) motivo para se excluir do cálculo do resultado primário uma despesa com contratos plurianuais?

Ainda na linha das exceções, registramos o que foi feito por ocasião das obras do PAC destinadas à Copa do Mundo de 2014 e às Olimpíadas de 2016, que o governo excluiu dos limites de endividamento global do setor público em 2010, alterando Resolução do Senado Federal. Na prática, significa dizer que para a execução de obras relacionadas aos 2 eventos esportivos, União, Estados e municípios poderiam se endividar infinitamente. Simples assim.

E por falar em gastos desenfreados, a proposta do novo arcabouço fiscal, que tramita na Câmara dos Deputados, transforma o atual teto de gastos em uma regra de piso de gastos, assegurando um valor anual mínimo de investimentos no patamar de R$ 75 bilhões.

O texto foi construído justamente para sustentar aventuras como o novo PAC, independente do cenário macroeconômico. Apesar de não ter sido esclarecido, até o presente momento, de onde virão as receitas. Aumento de impostos? Endividamento público?

O método do Partido dos Trabalhadores vai ficando cada vez mais claro: desfazer avanços e insistir em velhas práticas. Como, por exemplo, o caso da política nacional de saneamento, com a edição, logo do início do governo, de decretos ilegais para privilegiar estatais historicamente ineficientes e aparelhadas, em detrimento da livre concorrência. Tais decretos só foram alterados em razão da forte ação realizada pelas bancadas de oposição da Câmara dos Deputados e do Senado Federal.

A análise da carteira do PAC Saneamento, com contratos celebrados de 2007 a 2009, mostra cenário similar ao do programa como um todo. As administrações petistas prometeram investimentos da ordem de R$ 37 bilhões, dos quais só R$ 19,8 bilhões foram empenhados, pelas razões já expostas no presente artigo.

Além disso, ainda restou R$ 1 bilhão a ser pago e 612 contratos ainda não concluídos, estranhamente classificados pelo governo como “em situação normal”. Destaca-se que este investimento, se um dia integralmente concluído, dará lastro a obras isoladas em 553 municípios, que não universalizarão o acesso, diferente dos investimentos decorrentes das concessões celebradas sob a vigência do novo marco regulatório.

Ante todo exposto, o que esperar do novo PAC?

Mais do mesmo. Atraso e retrocesso são marcas com as quais somos forçados a conviver nos longos 227 dias que se passaram de um governo despreparado e que não sabe o que fazer, além de olhar para o retrovisor.

Com informações do Poder360

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