PALANQUE
Lula e Flávio Bolsonaro miram nos gargalos da população
Dívidas, segurança e saúde pública emergem como eixos centrais que podem definir o pleito de 4 de outubro de 2026. Percepções da Genial/Quaest e Datafolha são cruciais.
Nesta segunda-feira, 20 de abril de 2026, especialistas consultados pelo Metrópoles apontaram que o endividamento, a segurança pública e a saúde são os temas mais sensíveis e decisivos para o eleitorado brasileiro no pleito de outubro. A análise, baseada em recentes pesquisas de opinião, revela que a percepção da população sobre esses gargalos cotidianos molda os discursos de pré-candidatos ao Planalto, como Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), e pode determinar o resultado das Eleições 2026.
A menos de seis meses do pleito, o presidente Lula e o senador Flávio Bolsonaro já direcionam suas campanhas eleitorais para abordar esses tópicos, que se destacam entre as principais preocupações do eleitorado e ganham espaço nas plataformas políticas.
Economia
Valdir Pucci avalia que, mesmo com a melhora nos índices econômicos durante o mandato do presidente Lula, a percepção da população diverge dos números oficiais. O governo demonstra preocupação com essa disparidade e tem implementado medidas para mitigar tal avaliação.
Dados da pesquisa Genial/Quaest, divulgada na semana passada, indicam uma visão negativa sobre a economia do país. Segundo o levantamento, 50% dos entrevistados perceberam piora na economia (aumento de 2 pontos percentuais em relação à pesquisa anterior), enquanto apenas 21% viram melhora no último ano (queda de 3 pontos percentuais).
Em entrevista ao programa Acorda, Metrópoles na manhã de sexta-feira, 17 de abril de 2026, o cientista político e CEO da Quaest, Filipe Nunes, atribuiu essa percepção negativa a dois fatores principais: o crescente endividamento da população e os elevados valores gastos em jogos de azar online, as chamadas bets.
O endividamento, na visão dos especialistas, é o principal vetor que puxa para baixo a percepção econômica e gera pressão sobre o governo Lula. Dados da Quest revelam um salto de 65% para 72% no número de entrevistados que afirmam ter poucas ou muitas dívidas a pagar.
“Esse endividamento está consumindo renda e dominando a capacidade de consumo dos brasileiros. Soma-se a isso o altíssimo nível de famílias brasileiras, cerca de 30%, que estão jogando bets. Ou seja, o consumo está sendo trocado, de alguma forma, por dívida ou jogo, e isso dificulta que o eleitor consiga vivenciar o bem-estar que vemos nos números estatísticos oficiais”, disse Nunes ao Metrópoles.
Nesse cenário, Pucci pontua que os índices econômicos se tornam um tema central nas campanhas de Lula e Flávio Bolsonaro. Enquanto o presidente Lula dispõe de números oficiais para defender sua gestão, Flávio Bolsonaro pode capitalizar sobre a percepção de insatisfação da sociedade.
“A sensação da sociedade é que não houve essa melhora, ou seja, a sociedade tem essa sensação de que a economia está estagnada, e o Flávio vai aproveitar esse sentimento de insatisfação econômica para bater nessa tecla”, pontua Valdir Pucci.
Fatores decisivos nas eleições
- O brasileiro retorna à urna de votação em 4 de outubro de 2026, para o 1º turno, para eleger presidente e vice-presidente da República, governador e vice-governador, dois senadores, deputados federais, vereadores e deputados distritais, no caso do DF.
- O cenário atual indica que, tal qual em 2022, a polarização política no país deve se estender às urnas, e o novo presidente provavelmente não será eleito com uma grande margem de vantagem.
- Neste quadro de polarização, analistas avaliam que temas-chave serão determinantes para a escolha do eleitor, como saúde, segurança pública e economia, questões sentidas de forma mais aguda no dia a dia do brasileiro.
Segurança pública
Para os analistas consultados pela reportagem, a segurança pública também retorna ao centro da disputa política eleitoral. Na avaliação de Valdir Pucci, as discussões sobre o tema devem ser encabeçadas por Flávio Bolsonaro, visto que desperta maior interesse em políticos de direita.
Essa preocupação, inclusive, já se reflete nas pesquisas de opinião. Segundo levantamento Datafolha divulgado na semana passada, a segurança pública é considerada o maior problema do Brasil para 16% dos entrevistados.
“Vai ser muito importante nessa eleição a sensação de insegurança da sociedade, pois ela tem se demonstrado muito forte. E essa é uma pauta tradicional da direita. Então essa questão da defesa e o aumento do combate à violência urbana vai dominar a agenda de Flávio Bolsonaro”, avalia o cientista político.
A preocupação com segurança pública no Brasil é antiga, mas ganhou maior relevância — e tons de polarização — nos últimos meses, especialmente após os Estados Unidos manifestarem interesse em classificar organizações criminosas do país como terroristas. O posicionamento norte-americano alterou os rumos da discussão doméstica e voltou a dividir as opiniões de Lula e Flávio Bolsonaro.
O governo do presidente Lula adotou postura contrária à medida, argumentando que a determinação abriria precedentes para possível intervenção norte-americana no Brasil ou até mesmo uma atuação militar. Por outro lado, Flávio Bolsonaro se posiciona a favor, acusando Lula de querer proteger tais organizações ao não se opor à classificação.
Saúde
Ao analisar a última pesquisa Quaest, Filipe Nunes chamou atenção para o aumento da preocupação do eleitor com a saúde pública. Na série avaliada pelo cientista político, entre maio de 2025 e a pesquisa divulgada nesta semana, houve um crescimento de quatro pontos percentuais na preocupação do eleitor com o tema.
Quando questionados sobre “qual a sua maior preocupação em relação ao Brasil atual?”, a saúde pública aparece, inclusive, à frente da economia. Veja:
- Violência: 27% (estável, em relação à última pesquisa)
- Corrupção: 19% (-1 p.p.)
- Problemas Sociais: 16% (-2 p.p.)
- Saúde: 14% (+1 p.p.)
- Economia: 9% (-1 p.p.)
- Educação: 7% (+1 p.p.)
Embora se mostre entre as preocupações do eleitor, Valdir Pucci avalia que a saúde pública possui maior influência nas eleições locais.
“[O eleitor] trata [saúde] muito como uma coisa local na sua visão, ou seja, ele cobra mais o prefeito e o governador do que o executivo federal nesse caso. Já segurança e economia, ele enxerga como problemas nacionais que precisam de solução”, pontua o cientista político.
O presidente Lula, por outro lado, parece estar se preparando para incluir o tema em sua campanha. Nesta semana, o ministro da Saúde Alexandre Padilha utilizou eventos públicos para criticar Flávio Bolsonaro (PL) sobre a atuação de seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), durante a pandemia de Covid-19.
As declarações indicam que a saúde pública pode se tornar um dos motes petistas para a campanha deste ano, enquanto Flávio Bolsonaro busca desvincular-se da imagem do pai e posicionar-se como uma opção mais moderada.
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