FÉ SOB SUSPEITA

Médium é acusada de forjar psicografias com dados de redes sociais

Fachada da Casa de Caridade Inácio Daniel.
Casa de Caridade Inácio Daniel, em Águas Claras, é alvo de apurações por suspeita de fraude em cartas psicografadas - Foto: KEBEC NOGUEIRA/METRÓPOLES @kebecfotografo

Investigação aponta que mensagens seriam produzidas a partir de perfis digitais de enlutados; Polícia Civil do Distrito Federal apura denúncias de charlatanismo.

No abismo do luto, onde a busca por conforto se transforma em uma necessidade urgente, a fé de dezenas de famílias foi colocada à prova. Uma investigação jornalística revelou um esquema de manipulação emocional que atingiu frequentadores da Casa de Caridade Inácio Daniel, instituição liderada pela médium Maira Rocha no Distrito Federal.

Relatos colhidos ao longo das últimas três semanas apontam que as supostas cartas psicografadas, que prometiam consolo aos parentes de pessoas falecidas, seriam forjadas a partir de pesquisas em fontes abertas, como boletins de ocorrência e, principalmente, publicações em redes sociais como Instagram e Facebook.

A prática, que gera profundos traumas nas vítimas, envolve o uso de detalhes minuciosos — como descrições de roupas, menções a eventos cotidianos e até erros factuais — coletados digitalmente para conferir uma falsa aura de veracidade às mensagens. Em um dos casos, a médium teria inventado o nome de uma neta e citado informações incorretas, retiradas de publicações de terceiros, causando sofrimento adicional aos familiares.

A Federação Espírita Brasileira (FEB) reforça que o espiritismo preza pela gratuidade e pelo questionamento. Especialistas alertam que a vulnerabilidade emocional do luto torna as pessoas alvos fáceis de práticas que utilizam a tecnologia para explorar a dor humana. "O que é errado é o médium se incomodar com a dúvida", pontua a entidade, recomendando a busca por centros de credibilidade comprovada.

Além da fraude, ex-frequentadores denunciam a prática de assédio processual. Críticos que tentaram questionar a autenticidade das sessões relatam terem sido alvos de represálias jurídicas, com ações movidas pela médium sob a acusação de intolerância religiosa, o que teria silenciado outras possíveis vítimas.

A Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF) confirmou a existência de inquérito policial para apurar as denúncias de charlatanismo. Enquanto as investigações seguem em curso, a dignidade dos enlutados permanece central no debate sobre a ética na prestação de serviços religiosos.

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