SAÚDE CRÍTICA RN
LAIS/UFRN alerta: Walfredo Gurgel atende vítima de moto a cada 3h
Estudo divulgado nesta terça-feira, 05 de maio de 2026, pelo LAIS/UFRN aponta 58 atendimentos semanais e alerta para a "Barreira dos 60" de traumas.
Um novo levantamento divulgado nesta terça-feira, 05 de maio de 2026, pelo Laboratório de Inovação Tecnológica em Saúde (LAIS/UFRN) revelou um cenário alarmante no maior pronto-socorro do Rio Grande do Norte: o Hospital Walfredo Gurgel atende, em média, uma vítima de acidente de motocicleta a cada três horas. Os dados, que integram o "Observatório de vigilância sobre violência no trânsito" e foram entregues à Secretaria de Saúde Pública do RN (Sesap), evidenciam uma pressão contínua e insustentável sobre a capacidade hospitalar, impactando diretamente vidas, gerando sequelas e elevando os custos do sistema público de saúde, configurando uma grave questão social e de saúde pública.
Em nota, a Sesap informou que esses dados ressaltam a pressão constante sobre o Hospital Walfredo Gurgel. Além das perdas de vidas, a pasta destaca os custos elevados para o sistema público de saúde. Segundo a Secretaria, a média de atendimentos "revela não apenas a intensidade da demanda, mas sobretudo a natureza ininterrupta desse fluxo, que impacta diretamente a capacidade operativa das equipes assistenciais, especialmente nas áreas cirúrgicas e de ortopedia".
Quase 60 atendimentos por semana
O "Observatório de vigilância sobre violência no trânsito" detalha que o Walfredo Gurgel registra uma média semanal de 58 atendimentos a vítimas de acidentes de moto. Essa aproximação com a marca de 60 vítimas por semana é denominada "Barreira dos 60" no documento e é motivo de grande preocupação.
“Na prática, o hospital recebe um novo trauma de motos a cada três horas, ininterruptamente. Qualquer variação acima, sobrecarrega as salas de cirurgias e as equipes de ortopedia”, alertou o pesquisador do LAIS Ricardo Valentim, um dos autores do relatório.
A média semanal de atendimentos aponta que o Hospital Walfredo Gurgel "opera no limite crítico de sua capacidade". O levantamento rastreia os números desde janeiro de 2025, e o ápice de internações foi registrado em dezembro de 2025, com 304 internações e um fluxo de 10 pacientes por dia, representando um aumento de 20%. O número mínimo, por sua vez, ocorreu em abril de 2026, com 211 casos.
Para o LAIS/UFRN, o documento serve como um guia essencial para o desenvolvimento de medidas que otimizem o funcionamento das unidades hospitalares. O dado mais alarmante não reside no total mensal, mas na cadência contínua dos traumas. "O hospital não tem 'respiro': a cada 180 minutos, o sistema de trauma é acionado para um novo motociclista", frisa o relatório.
A recomendação do LAIS é clara: a manutenção do estoque de órteses, próteses e materiais especiais deve ser calculada para atender à "Barreira dos 60". Isso "garante que, mesmo em semanas de desvio padrão positivo (picos de 65+ pacientes), o tempo de resposta cirúrgica não seja comprometido".
Pesquisador: educação no trânsito é crucial
Ricardo Valentim reforça que o elevado número de acidentes é grave e reflete um problema endêmico da violência no trânsito. “Precisa de maior atenção das autoridades, tanto do poder público, da classe política, para que a gente consiga elaborar um processo de maior regulação, principalmente sobre aquelas pessoas que trabalham utilizando motocicletas”, apontou.
O pesquisador destacou que, embora o transporte por motocicletas exponha mais o trabalhador, é uma realidade diária na cidade e exige a formulação urgente de políticas públicas. “Eles trabalham porque precisam exercer essa atividade laboral, evidentemente, mas é um tipo de trabalho que precisa de maior educação no trânsito, maior cuidado, maior atenção e não pode ser negligenciado esse modelo regulatório ou esse processo de regulação, principalmente pelos formuladores de política pública, porque nós estamos aumentando o número de pessoas com sequelas vítimas de acidente, principalmente motos”, explicou Valentim.
O que diz a Sesap
A Sesap reiterou que investimentos em tecnologia da informação, como o observatório, proporcionam um "salto qualitativo na produção de informações", permitindo análises mais robustas e confiáveis. Este avanço, segundo a pasta, "oferece subsídios concretos para a formulação de políticas públicas mais eficazes, voltadas à redução da violência no trânsito".
A Secretaria enfatiza que "a violência no trânsito, por sua vez, já se consolida como uma grave questão de saúde pública. Além do impacto irreparável na perda de vidas, gera um elevado custo para o sistema público de saúde, mobilizando recursos humanos, estruturais e financeiros de forma contínua e crescente".
A nota da Sesap esclarece que os dados do Hospital Walfredo Gurgel representam uma fração importante da realidade, mas que "devem ser compreendidos como um indicativo relevante, porém parcial, de um problema ainda mais amplo e complexo, reforçando a necessidade de estratégias integradas, intersetoriais e sustentadas por dados qualificados para o enfrentamento efetivo da violência no trânsito no estado".
Motociclistas sem CNH e mais motos que carros no RN
Contextualizando a situação, um levantamento do Departamento de Trânsito do RN (Detran) de 2025 revelou que metade dos proprietários de motocicletas, ciclomotores, motonetas e triciclos não possuía Carteira Nacional de Habilitação (CNH), totalizando mais de 340 mil pessoas nesta situação.
O Detran também informou em 2025 que o número de motos em circulação ultrapassou o de carros pela primeira vez na história do Rio Grande do Norte, com mais de 680 mil motocicletas registradas.
Adicionalmente, em 2025, a Secretaria de Segurança Pública e Defesa Social do RN (Sesed) comunicou que mais de 60% das mortes fatais em acidentes de trânsito no Rio Grande do Norte em 2024 envolveram motocicletas, sublinhando a gravidade e a prevalência desses incidentes.
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