FORRÓ EM RISCO

Artistas de forró criticam disparidade de cachês com sertanejo em festas juninas do Nordeste

Artistas de forró Walkyria Santos e Flávio José criticam cachês.
Walkyria Santos e Flávio José em apresentações.

Cantores Walkyria Santos e Flávio José expressam descontentamento com a valorização de outros gêneros musicais em eventos tradicionais. A polêmica reacende o debate sobre a preservação da cultura nordestina e a equidade no mercado da música.

A disputa pelo protagonismo nas tradicionais festas de São João do Nordeste ganhou novos contornos na última semana, com artistas de forró elevando a voz contra a disparidade de cachês e a valorização de gêneros musicais como o sertanejo. A cantora Walkyria Santos e o forrozeiro Flávio José protestaram publicamente, humanizando o debate e destacando o impacto dessa desigualdade na dignidade e na sustentabilidade da cultura nordestina.

Em meio às festividades juninas que mobilizam milhões de pessoas, a insatisfação de Walkyria Santos ecoou em Caruaru (PE) e Campina Grande (PB) no último fim de semana. A artista demonstrou sua perplexidade com a apatia de parte do público durante sua apresentação, sugerindo que a atenção era direcionada à expectativa de shows sertanejos. "Deixa o sertanejo lá naquele palco principal e a gente do forró aqui. Eu só quero vir pra cá agora, viu?", declarou do palco, expondo a frustração com a percepção de desvalorização.

A declaração de Walkyria ganhou força com o apoio de outros nomes do forró. O cantor Robson Paiva apontou para um suposto "acordo velado" que privilegia artistas sertanejos em grandes festivais no Sul e Sudeste, enquanto bandas de forró tradicionais teriam pouca ou nenhuma oportunidade nessas mesmas regiões. "Quando foi que você viu Walkyria Santos tocando em Goiânia, por exemplo? Você não vai encontrar", questionou Paiva, evidenciando a falta de reciprocidade no mercado musical brasileiro.

A desvalorização percebida afetou também a agenda de Flávio José. O cantor de 74 anos anunciou o cancelamento de 15 apresentações na Bahia, como forma de protesto contra a redução de seu cachê, enquanto, segundo ele, "outros artistas que nada têm a ver com o forró, como sertanejos, ganham rios de dinheiro". A decisão do forrozeiro, amparada por uma recomendação do Ministério Público baiano sobre a diminuição de cachês, sublinha o impacto econômico direto sobre os artistas regionais e a cultura local.

Em contrapartida, as prefeituras de Campina Grande e Caruaru defenderam a importância do forró em suas programações. A gestão de Campina Grande informou que 52% das atrações confirmadas são do gênero, enquanto Caruaru declarou que 80% de sua programação é dedicada ao forró. As prefeituras buscam demonstrar que o ritmo tradicional continua sendo a espinha dorsal dos eventos, apesar das críticas que apontam para a necessidade de maior equidade e reconhecimento financeiro para os artistas nordestinos em todos os palcos do país.

A polêmica gerada pelos artistas de forró levanta um debate crucial sobre a preservação da identidade cultural e a garantia de condições dignas para os criadores. A discussão, longe de ser meramente profissional, toca na essência da valorização da arte e na salvaguarda do legado cultural nordestino para as futuras gerações.

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