GOVERNO LULA EM JOGO

Especialista: Derrubada de tarifas traria vitória política a Flávio Bolsonaro

Flávio Bolsonaro participando de audiências nos Estados Unidos.
Flávio Bolsonaro em audiências organizadas pelo USTR nos Estados Unidos.

Cientista político Rafael Cortez analisa cenários e aponta como o Palácio do Planalto pode capitalizar sobre a decisão dos EUA, mesmo em caso de manutenção das taxas.

A presença de Flávio Bolsonaro em audiências organizadas pelo USTR (Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos) gerou debate político sobre o controle da narrativa em torno da sugestão de tarifas a produtos brasileiros. Na ocasião, na manhã de terça-feira, 7 de julho de 2026, o parlamentar participou do último dia de discussões do órgão, responsável pela investigação que pode impactar a economia do Brasil.

O cientista político e professor do IDP (Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa) Rafael Cortez analisou o cenário eleitoral decorrente das negociações comerciais entre Brasil e Estados Unidos. Segundo ele, o governo Lula leva vantagem na disputa pelo discurso político sobre o tema, independentemente do desfecho das tarifas impostas a produtos brasileiros.

Cortez explicou que Lula possui caminhos favoráveis tanto em caso de queda quanto de manutenção das tarifas. "A razão dessa vantagem é que me parece que Lula vence com diversos caminhos. Ele não depende nem da queda das tarifas, nem da manutenção", afirmou o especialista. Na hipótese de derrubada das taxas, o presidente poderia apresentar o resultado como fruto de uma diplomacia soberana, conduzida de igual para igual com o governo norte-americano.

Caso as tarifas sejam mantidas, o discurso de transferência de responsabilidade ao bolsonarismo — por sua aproximação com Donald Trump e sua agenda protecionista — também ofereceria capital político ao governo, permitindo associar a decisão a governos anteriores.

Único caminho favorável a Flávio exige gesto espetacular de Trump

O analista identificou um cenário específico em que Flávio Bolsonaro poderia obter uma vitória política expressiva. "Flávio tem uma chance de vencer, me parece, que é o caso de uma derrubada dessas tarifas e uma comunicação muito forte por parte de Donald Trump, atribuindo a derrubada das tarifas à figura do Flávio Bolsonaro", explicou Cortez. Para que essa narrativa se sustente eleitoralmente, o especialista avaliou que seria necessário um gesto "espalhafatoso", capaz de criar a percepção de que, sob uma eventual vitória de Flávio, o Brasil teria uma relação privilegiada com os Estados Unidos.

Bolsonarismo teria sido pego de surpresa pelo tarifaço

Cortez também destacou que a campanha de Flávio Bolsonaro não teria calculado adequadamente os riscos envolvidos. Segundo ele, Flávio foi aos Estados Unidos inicialmente para reforçar seu prestígio político após o vazamento de um áudio envolvendo ele e Daniel Vorcaro, buscando consolidar sua posição como candidato protagonista da direita. "Flávio então vai aos Estados Unidos, retoma esse vínculo, traz destaque a esse vínculo para perto da sua campanha", disse o especialista. Contudo, o surgimento do tema tarifário — e o elogio público de Trump a Flávio justamente nesse contexto — teria tornado difícil para o pré-candidato se dissociar da agenda protecionista norte-americana.

Eleição equilibrada e o papel dos eleitores independentes

Questionado sobre a relevância do tema Brasil-Estados Unidos ao longo da campanha eleitoral, Cortez ponderou que a relação bilateral será um elemento importante, mas não dominante. "Não estou dizendo, e nem acho que seja o cenário, de que esse tema vai dominar o debate presidencial a despeito das questões clássicas de segurança pública, economia, inflação", afirmou. O analista ressaltou que, em uma disputa muito equilibrada, a variável decisiva pode vir de outros fatores, como investigações da Polícia Federal, escândulos de corrupção ou o comportamento dos eleitores independentes. Para Cortez, Flávio precisaria atrair esse grupo para virar o resultado do primeiro para o segundo turno — e uma eventual abstenção desse eleitorado, cansado da polarização, dificultaria significativamente essa tarefa.

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