FÉ NA PISTA

Padre DJ Peixoto lidera rave católica por Papa Francisco

Padre DJ Guilherme Peixoto em performance de música eletrônica para multidão na Praça de Maio, Buenos Aires.
Padre Guilherme Peixoto, o Padre DJ, comanda a mesa de som durante a "rave católica" na Praça de Maio, Buenos Aires, em homenagem ao Papa Francisco.

Evento em Buenos Aires celebra um ano da morte do Pontífice, unindo música eletrônica e espiritualidade no sábado, 18 de abril.

Dezenas de milhares de pessoas se reuniram em Buenos Aires no sábado, 18 de abril de 2026, para uma "rave católica" conduzida pelo padre português Guilherme Peixoto, mundialmente conhecido como Padre DJ. O evento, que transformou a Praça de Maio em um vibrante santuário de fé e música eletrônica, prestou uma emocionante homenagem ao Papa Francisco, marcando exatamente um ano de seu falecimento. A iniciativa buscou ir além das paredes da igreja, utilizando a batida do techno melódico para tocar corações e inspirar os jovens a "mudar o mundo", um dos apelos mais fervorosos do falecido Pontífice.

Com sua vestimenta casual de Jeans, colarinho clerical e um terço, o Padre Guilherme Peixoto subiu à cabine de DJ, misturando hinos contemporâneos com batidas pulsantes da música eletrônica. A trilha sonora de clássicos como Super Mario e a enigmática "Ameno (dori me)" dos anos 1990 — que ecoa um canto gregoriano — foram habilmente entrelaçadas com trechos inspiradores dos discursos do Papa Francisco. O palco, adornado com uma cruz iluminada e a imagem de uma pomba branca simbolizando o Espírito Santo, criava uma atmosfera de reverência e celebração.

Do alto da mesa de som, Peixoto, de 52 anos, dominava a multidão em êxtase, com a majestosa catedral de Buenos Aires de um lado e a sede do governo argentino ao fundo. Antes da apresentação, o padre expressou à agência de notícias AFP sua esperança de que "a música consiga tocar os corações a tal ponto que os jovens voltem para casa com vontade de mudar o mundo". Era um convite aberto para a união, a reflexão e a ação, transcendendo as fronteiras da religião.

A performance abriu com uma marcante fala de Francisco: "A Igreja não é uma ONG". Quase duas horas depois, o padre português relembrou outro vibrante conselho do falecido Papa aos jovens: "Façam bagunça". A pista de dança pulsava ao som de trechos de "Sólo le pido a Dios", do renomado músico argentino León Gieco, intercalados com encíclicas papais. O público, muitos usando auréolas luminosas vendidas por menos de US$ 10 (cerca de R$ 50), cantava em uníssono, imerso na experiência.

Entre os participantes, o advogado Tomás Ferreira, de 25 anos, que não é católico, elogiou a iniciativa. "É bom que o padre tente unir as pessoas com a música eletrônica e a religião", disse ele à AFP, destacando que "a religião está se modernizando e isso é bom". Ferreira já havia presenciado uma apresentação de Peixoto em Lisboa em 2023, o que demonstra o alcance e a recorrência do trabalho do Padre DJ.

De Guimarães à cabine de DJ

Natural de Guimarães, no norte de Portugal, Guilherme Peixoto é padre da Arquidiocese de Braga desde 1999. Ele sorri ao explicar que suas missas dominicais são "normais, é uma liturgia normal". Sua paixão pela música, contudo, acompanha-o desde a adolescência, quando, aos 13 anos, era seminarista e tocava órgão em uma banda de pop-rock com colegas do seminário. "Ir para a igreja e sair para um bar ou um clube para ouvir música era igual, era normal", recordou à AFP.

No início dos anos 2000, Peixoto começou a organizar noites de karaokê para angariar fundos para sua paróquia endividada. Foi ali que seu interesse pelas mixagens floresceu. Ele investiu em equipamentos, mergulhou em vídeos do YouTube e, autodidata, aprimorou suas habilidades ao longo dos anos. "Quando comecei a aprender a mixar, também comecei a aprender a ganhar uma cultura de música eletrônica. Já não era apenas para entender exatamente como se organiza um set, mas também o que é isso de uma viagem de música eletrônica. Foi um processo longo", detalhou Peixoto.

O Momento-chave da pandemia

A pandemia de COVID-19 marcou um divisor de águas em sua carreira musical. "O mundo parou", ele rememora. Com as restrições, Peixoto começou a fazer transmissões ao vivo no Facebook, e os vídeos rapidamente viralizaram, rendendo-lhe o carinhoso apelido de "padre DJ".

"O techno começou a ficar um pouquinho mais melódico, que é o que eu toco agora", explicou Peixoto. Ele adaptou seu estilo para que a intensidade não ofuscasse a capacidade da música de "transmitir mensagens, pensamentos, músicas ao longo do set". E a mensagem principal? "Mensagens de paz", ele afirma com convicção.

O Padre Peixoto já levou sua "rave católica" a diversas cidades, incluindo Lisboa, Beirute, México e Rio de Janeiro. No entanto, ele destaca uma apresentação em Ibiza, em julho de 2024, como um de seus momentos mais significativos. Na ocasião, celebrou seus 25 anos de sacerdócio tocando para milhares de pessoas na famosa ilha da música eletrônica.

"Eu estava muito apreensivo para saber como, em Ibiza, em uma cultura de música eletrônica total e em um ambiente de férias, eles iam olhar para um padre ali na cabine", confessou. Mas qualquer temor se dissipou rapidamente. "Eu senti a comunhão entre todos, foi um momento importante." Ele ponderou: "Não sabia se estava transmitindo a energia ou recebendo toda a força. Provavelmente os dois. Mas foi esse momento, esse momento-chave."

Essa profunda experiência de comunhão na pista de dança reforçou sua convicção de seguir com a música. "Arrepia quando vejo os jovens, quando sinto que estamos todos unidos na pista de dança, que estamos todos nesta viagem juntos", concluiu o Padre DJ, que continua a usar a música como ponte entre a fé e a vida contemporânea.

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