FUTURO EM RISCO

Telas diárias freiam desenvolvimento de crianças, diz OCDE

OCDE mede o impacto negativo do uso de celulares por crianças em idade pré-escolar
OCDE mede o impacto negativo do uso de celulares por crianças em idade pré-escolar — Foto: Jornal Nacional/ Reprodução

Pesquisa em nove países, incluindo o Brasil, mostra que uso diário de tablets e celulares por crianças de 5 anos reduz pontos em vocabulário e compreensão.

A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) revelou, nesta quarta-feira, 06/05/2026, um estudo impactante sobre o consumo digital em nove países, incluindo o Brasil. A pesquisa aponta que crianças de apenas 5 anos que utilizam celulares e tablets diariamente apresentam um desempenho inferior na aprendizagem. Esse cenário acende um alerta sobre o desenvolvimento cognitivo infantil, evidenciando como o uso excessivo de telas pode comprometer habilidades essenciais e a dignidade de uma infância plena.

O estudo da OCDE, realizado para avaliar a aprendizagem de crianças de 5 anos, revelou dados preocupantes. No Brasil, a Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal, parceira na pesquisa, investigou três estados – Ceará, Pará e São Paulo – e encontrou indícios claros de como as crianças gastam seu tempo fora das atividades de leitura ou brincadeiras. Cerca de metade das crianças brasileiras de 5 anos utiliza dispositivos eletrônicos todos os dias, superando a média de 46% dos nove países pesquisados. Na Holanda, por exemplo, esse índice é significativamente menor, com apenas 24%.

A análise aprofundada mostrou que, no Brasil, crianças com uso diário de telas têm uma avaliação 11 pontos menor na compreensão de números e medidas, e 10 pontos menor em vocabulário, comparadas àquelas que não utilizam esses aparelhos todos os dias. Em um panorama mais amplo, o raciocínio matemático das crianças brasileiras ficou 44 pontos abaixo da média dos outros países participantes da pesquisa.

Marina Fragata Chicaro, especialista envolvida no estudo, explica o fenômeno: 'A hipótese que está acontecendo é: a criança que está dedicada ao celular, ela está deixando de vivenciar outras atividades que poderiam ser mais promotoras do seu desenvolvimento. Sobretudo porque o uso que está sendo feito do celular não é para atividades educativas, é mais para passar tempo, atividades lúdicas. Isso, de fato, está interferindo no aprendizado e no desenvolvimento da criança.'

Um dado adicional sublinha a urgência do problema: a leitura em casa, um pilar fundamental para o desenvolvimento infantil. No Brasil, 53% das famílias nunca ou raramente leem para seus filhos. Apenas 14% dedicam-se à leitura com as crianças pelo menos três vezes por semana, um contraste gritante com a média internacional de 54%.

No contexto da Fundação Julita, onde celulares são banidos e o ambiente convida à interação com livros e a natureza, nenhuma criança sente falta das telas. Mas o desafio persiste no ambiente doméstico. 'Os pais ficam pedindo dica: ‘Como que a gente faz, na Julita, para que as crianças fiquem sem celular?’', relata a educadora Kelly Silva.

Para suprir essa demanda, Kelly SIlva desenvolveu uma engenhosa 'maleta de viagem desconectada'. O kit, repleto de livros e atividades interativas, é levado pelas crianças para casa, incentivando a participação dos pais. 'Ela faz esse lugar de tirar as crianças da tela, mas também trazer a família para perto. Tira as crianças da tela e garante que elas construam um futuro', conclui Kelly, destacando o valor da reconexão familiar para o desenvolvimento infantil.

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