INVESTIGAÇÃO PREFEITURA SP
SPTuris pagou R$ 12 milhões a empresas ligadas a ex-sócio de funcionário alvo de investigação
Rodrigo Raveli, que fiscaliza contratos de R$ 9 milhões, atuou como gerente de eventos e era sócio de empresas contratadas. Prefeitura afirma que apurará condutas.
Uma rede de empresas e ONGs com ligações ao Instituto Conhecer Brasil (ICB) e à produtora do filme Dark Horse ganhou proeminência na Prefeitura de São Paulo após a nomeação de Rodrigo Raveli para gerente de eventos da São Paulo Turismo (SPTuris). Raveli, que anteriormente era sócio de uma dessas companhias, agora fiscaliza contratos que somam R$ 9 milhões com empresas de um de seus ex-sócios. Além disso, a área sob sua gestão desembolsou R$ 3,5 milhões em despesas de um evento organizado por uma ONG liderada por Karina Gama, produtora de Dark Horse.
Raveli assumiu seu cargo de confiança na SPTuris em fevereiro de 2022, ainda como sócio da Complexys Soluções Integrada, formalizando sua saída da sociedade dois meses depois. A investigação policial ganhou força no início desta semana com o cumprimento de mandados de busca e apreensão na sede da Complexys, como parte da Operação Sem Wi-FI. A operação apura o possível desvio de verbas da prefeitura, destinadas à instalação de pontos de Wi-Fi, para a produção do filme Dark Horse.
Um dos indícios que a polícia considera é a apresentação de notas frias pela ICB, no valor de mais de R$ 2 milhões, emitidas pela Complexys. A ICB recebeu R$ 108 milhões da Prefeitura de São Paulo para prestar contas. A Complexys, empresa que já teve seu contrato cancelado, tem sido contratada recorrentemente desde setembro de 2024 pelo gabinete do deputado federal Mário Frias (PL-SP), produtor do filme.
Na Complexys, Raveli dividiu sociedade com André Feldman e Eduardo Ferreira Franco, que atua como conselheiro do ICB. A entidade compartilha o mesmo endereço da Academia Nacional de Cultura (ANC), outra organização não governamental comandada por Karina Gama. Sob a gerência de Raveli, a SPTuris financiou R$ 3,5 milhões em despesas de uma feira gospel e R$ 292 mil em infraestrutura para um show do cantor Conrado, ambos organizados pela ANC.
Eduardo Franco, atualmente, é sócio de duas empresas de eventos: Vamoz Comunicação e HCamargo (HCG Projetos e Cenografia). Desde o final de 2023, quando Franco passou a atuar nessas empresas, ambas têm recebido contratações frequentes da SPTuris e do próprio ICB. Uma emenda de R$ 750 mil teve R$ 445 mil destinados pela ICB às duas empresas de seu conselheiro. Chama a atenção o fato de a Vamoz ser uma empresa de pequeno porte que, em janeiro, ainda emitia sua 42ª nota fiscal.
Somente na SPTuris, a HCamargo firmou sete contratos que totalizam R$ 8,5 milhões para montagem de cenografia em eventos. A Vamoz, por sua vez, foi contratada dez vezes, totalizando R$ 470 mil. É Raveli o responsável por atestar o cumprimento desses contratos por parte de seu antigo sócio.
O montante deve aumentar no final desta semana, com o patrocínio de R$ 500 mil da Secretaria Municipal de Turismo para a DragCon Brasil 2026, evento licenciado pela Vamoz. Paralelamente, a ADESampa (Agência São Paulo de Desenvolvimento) destinará R$ 1,234 milhão em infraestrutura para o evento drag organizado pelo conselheiro da ONG ligada ao filme de Jair Bolsonaro. A empresa contratada será a HCamargo.
O maior contrato firmado pelas empresas de Eduardo Franco com a gestão Ricardo Nunes (MDB) veio da ADESampa, no valor de R$ 69,2 milhões, para a prestação de serviços de criação e execução de projetos cenográficos em eventos. Todos os detalhes deste processo estão sob sigilo na prefeitura.
A SPTuris encontra-se sob auditoria da Controladoria Geral do Município (CGM). A medida foi tomada após a revelação de situação similar: uma agência recém-criada, a exemplo de Vamoz e HCamargo, firmou diversos contratos com a SPTuris após um ex-sócio da proprietária da empresa assumir um cargo na prefeitura.
A Prefeitura de São Paulo informou que o servidor Rodrigo Raveli trabalha no órgão desde 2005 e que quaisquer condutas indevidas serão rigorosamente apuradas. A prefeitura destacou ainda que as empresas HCamargo e Vamoz não possuem contratos vigentes. Quanto a Raveli, a gestão municipal afirmou que ele gerencia diversos eventos e que as acusações serão investigadas internamente.
Raveli declarou que deixou a sociedade da Complexys ao retornar à prefeitura e que fiscaliza centenas de contratos simultaneamente, incluindo os de seu ex-sócio, que foram obtidos por meio de concorrência pública. Eduardo Franco não respondeu aos contatos para comentar o caso.
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