FALTA DE CRITÉRIO

Sociedade não pode ser ingênua com ações de influenciadores

Imagem ilustrativa de uma pessoa usando um celular com ícones de redes sociais ao redor.
Influenciadoras digitais têm grande poder de alcance e persuasão, mas com ele vem a responsabilidade. (Foto: Ilustrativa)

Casos recentes de prisão e polêmicas com influenciadoras evidenciam o impacto de suas ações no consumo, endividamento e percepção social, exigindo maior responsabilidade.

Dois acontecimentos recentes envolvendo grandes influenciadoras chamaram atenção e expõem como essas figuras operam como agentes econômicos e políticos. Uma servidora foi presa, acusada de ligações com o PCC, enquanto outra influenciadora causou polêmica ao beijar um macaco logo após encerrar relacionamento com um jogador de futebol, que frequentemente é alvo de ataques racistas que o comparam a este animal.

Esses casos vão além da mera fofoca. Eles demonstram o impacto real que influenciadores exercem sobre o consumo, o endividamento de famílias e a percepção de legalidade na sociedade. O modelo de negócios, que frequentemente mistura publicidade, apostas de alto risco e, em alguns casos, práticas potencialmente criminosas, é sustentado pela confiança de milhões de seguidores.

A situação envolvendo o macaco, por exemplo, evidencia como imagens aparentemente inofensivas podem reativar séculos de racismo e desumanização. Quando a imagem envolve uma mulher branca com grande alcance e um homem negro que é alvo de preconceito, o debate se estende à responsabilidade civil, ética e à necessária regulação das plataformas digitais.

Influenciadores possuem uma responsabilidade pública inerente ao seu alcance, impactando significativamente públicos jovens e vulneráveis. Mesmo sem intenção, eles devem responder pelos efeitos de seu conteúdo, reconhecer equívocos e adotar um mínimo de critério ético em sua exposição.

Esses eventos são sintomáticos de uma era em que as redes sociais dirigem grande parte de nossas vidas. O ecossistema digital muitas vezes promove a ideia de que tudo é permitido, permitindo que figuras públicas colham os benefícios da exposição sem arcar com as responsabilidades correspondentes. A sociedade precisa superar a ingenuidade diante dos complexos problemas que essa dinâmica gera.

No episódio do macaco, a influenciadora gravou seu vídeo em um zoológico, beijando o animal e fazendo uma piada que foi interpretada como uma possível indireta ao ex-namorado, jogador de futebol. A cena viralizou, gerando críticas sobre riscos sanitários, inadequação da interação com animais e reforço de estereótipos racistas contra o ex-parceiro.

A influenciadora gravou um pedido de desculpas, afirmando não ter tido intenção racista e reconhecendo a inadequação do conteúdo. Contudo, a volatilidade das redes sociais e a rápida absorção de "escândalos fugazes" muitas vezes diluem a força das consequências para atitudes irresponsáveis, que acabam sendo absolvidas em prazos cada vez mais curtos.

Já a servidora presa é acusada de lavagem de dinheiro para o PCC, crime que ela nega, alegando ser alvo de perseguição. O processo está em fase de investigação, sem condenação definitiva. A repercussão evidenciou a polarização em torno da figura pública, com defensores apontando perseguição e críticos vendo um exemplo da ligação entre apostas, ostentação e crime organizado.

A prisão também suscitou debates sobre o tratamento de celebridades no sistema prisional e sobre o papel de influenciadores na legitimação social de atividades ilícitas. Esses casos se somam a uma lista de grandes influenciadores envolvidos com condutas imorais ou ilegais, em um cenário onde redes sociais premiam ostentação e enriquecimento rápido, enquanto a fiscalização avança lentamente. É importante ressaltar, contudo, que a vasta maioria dos influenciadores não se envolve em atividades suspeitas.

O valor da confiança

A lavagem de dinheiro, frequentemente associada a inquéritos envolvendo apostas online, surge como um crime recorrente. Autoridades suspeitam que influenciadores validam dinheiro de origem duvidosa através de contratos de marketing, empresas fictícias, premiações artificiais e movimentações financeiras incompatíveis com a renda declarada.

Esse crime se adapta ao ambiente das redes sociais devido à opacidade do mercado de influência, dificultando a precisão do valor de publicidades e contratos. O ambiente favorece a ostentação como forma de credibilidade, e influenciadores possuem grande poder de mobilização financeira, podendo direcionar milhões de seguidores para plataformas de apostas ou investimentos questionáveis com um simples post.

Muitos criadores de conteúdo se tornam plataformas de distribuição de confiança, convertendo intimidade digital em poder de convencimento econômico. Isso representa um novo desafio social, pois a confiança depositada em influenciadores, por vezes superior à depositada em instituições tradicionais, amplifica o potencial de dano de práticas ilícitas.

Seguidores desenvolvem relações emocionais com influenciadores, defendendo-os como se fossem próximos e vendo neles um símbolo de ascensão social rápida. Por isso, investigações nem sempre abalam sua imagem, podendo até reforçar a identificação de fãs que se veem como vítimas de perseguição.

As redes sociais, que se beneficiam do engajamento gerado por polêmicas, amplificam esse fenômeno ao recompensar conteúdos que geram emoção e conflito. Crises se confundem com engajamento e visibilidade com credibilidade. Essa dinâmica, somada à crescente desconfiança em instituições como a imprensa, a Justiça e a ciência, explica por que acusações graves muitas vezes não impactam a popularidade de influenciadores.

Diante deste cenário, é imperativo deixar de encarar as ações de influenciadores como mero entretenimento. Se eles convertem atenção em poder, a responsabilidade deve ser proporcional. Quem se dirige diariamente a milhões de pessoas exerce uma liderança social, não é apenas 'gente comum com sorte na Internet'.

Isso não exige perfeição, mas sim transparência e consciência dos impactos de cada recomendação, especialmente em temas sensíveis como finanças, saúde e questões sociais. Plataformas digitais, legisladores, marcas e o público devem atuar de forma consciente para que o engajamento não sirva de escudo para descuidos éticos. O poder da influência deve vir acompanhado de um compromisso explícito com a verdade, a clareza e o interesse público.

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