DIGNIDADE ASSEGURADA

Senado acompanha caso de grávida torturada em Paço do Lumiar

Representação visual da atuação do Senado em Paço do Lumiar para investigar agressões contra doméstica grávida.
Senado fará diligência em Paço do Lumiar para acompanhar as investigações.

Comissão de Direitos Humanos fiscalizará investigações e assistência à vítima, Samara Regina, após aprovação unânime.

Em uma resposta contundente contra a violência e a exploração, a Comissão de Direitos Humanos (CDH) do Senado Federal aprovou, nesta quarta-feira, 13 de maio de 2026, um requerimento da senadora Eliziane Gama (PT-MA) para acompanhar de perto o caso da trabalhadora doméstica Samara Regina. A jovem, de 19 anos e grávida, foi vítima de brutais agressões, tortura e humilhações em Paço do Lumiar, na Grande São Luís, um crime que chocou o Maranhão e levantou um alerta sobre a dignidade de trabalhadores em situação de vulnerabilidade. A decisão do Senado representa um compromisso firme em garantir justiça e proteção à vítima, monitorando as investigações e a assistência prestada à ela e ao seu bebê. A medida aprovada prevê a realização de uma diligência externa no município de Paço do Lumiar para monitorar de perto as investigações conduzidas pela Polícia Civil. Segundo o inquérito, os crimes teriam sido praticados pela empregadora, Carolina Sthela Ferreira dos Anjos, de 36 anos, e por um policial militar identificado como Michael Bruno Lopes Santos. Ambos os suspeitos já se encontram presos, enfrentando graves acusações.

A mobilização do Senado pela dignidade humana

A aprovação do requerimento foi unânime entre os parlamentares da CDH, que classificaram a medida como uma resposta essencial do Senado Federal diante da extrema gravidade das denúncias. A Comissão se propõe a fiscalizar o andamento do caso, as providências das autoridades e, crucialmente, a assistência oferecida à vítima e ao seu bebê. A senadora Eliziane Gama (PT-MA) ressaltou a necessidade da presença da CDH no estado para acompanhar a apuração e assegurar que as condições de vulnerabilidade da vítima recebam a devida atenção. “Aprovar este requerimento é reafirmar o compromisso desta Casa com a dignidade humana. Não estamos diante de uma mera controvérsia privada, mas de indícios alarmantes de exploração laboral e violência de gênero contra uma jovem em extrema vulnerabilidade”, declarou a senadora. Com a decisão, a comissão definirá nos próximos dias a composição da comitiva de senadores que viajará ao Maranhão. Não há um limite fixo de participantes, e parlamentares interessados poderão integrar a diligência, cuja data exata ainda será definida pela presidência da CDH em conjunto com a autora do requerimento.

O cenário de brutalidade e exploração

A jovem Samara Regina foi agredida em 17 de abril, na casa onde trabalhava, no município de Paço do Lumiar. Em seu depoimento, ela relatou ter levado puxões de cabelo, socos e murros, sendo derrubada no chão. Em meio aos ataques, tentou desesperadamente proteger a barriga, pois está grávida de cinco meses. A empregadora, Carolina Sthela, a acusava de ter roubado uma joia, que foi posteriormente encontrada dentro de um cesto de roupas sujas. Mesmo após a localização da joia, as agressões, segundo Samara, não cessaram. A vítima afirmou ter sido ameaçada de morte por Carolina Sthela caso contasse à polícia o ocorrido. “Começou com puxões de cabelo. Eu fui derrubada no chão e passei boa parte do tempo ali. Foram tapas, socos e murros... foi sem parar. Eles não se importavam”, disse a jovem, descrevendo a violência contínua. Samara também relatou que um homem, posteriormente identificado como o policial militar Michael Bruno Lopes Santos, participou das agressões, vindo à casa para pressioná-la com violência.

Jornada exaustiva e salário desumano

Além da violência física, o caso revela uma rotina de exploração laboral. A jovem de 19 anos afirmou ter recebido R$ 750 por pouco mais de duas semanas de trabalho. Ela acumulava funções, trabalhando quase 10 horas por dia, de segunda a sábado, com apenas 30 minutos de intervalo, sem ter sequer combinado o salário inicialmente, na esperança de conseguir comprar o enxoval para seu bebê.

Confissões em áudios e a trama da agressão

Áudios enviados pela própria empresária, Carolina Sthela, e obtidos pela TV Mirante, foram anexados ao inquérito e registram os relatos das agressões. Em uma das mensagens, Carolina afirma que a vítima “não era pra ter saído viva”. Ela descreve um “massacre” de quase uma hora, com tapas, murros e pisadas nos dedos. Carolina Sthela detalhou nos áudios que teve a ajuda do policial militar para pressionar a empregada. Ele teria chegado à residência armado na manhã do dia 17 de abril, “com uma jumenta de uma arma, chega brilhava”, segundo a própria empregadora.

A investigação da conduta policial

Quatro policiais militares – sargento Cerqueira, cabo Henrique e os soldados De Sá e Yuri – que atenderam a ocorrência estão sob investigação administrativa e foram afastados de suas funções nas ruas. Eles devem depor nos próximos dias para esclarecer sua conduta, especialmente após a divulgação de áudios em que Carolina Sthela afirma não ter sido presa em flagrante por conhecer um dos agentes. Samara relatou que, após chegarem à casa, os policiais conversaram brevemente com a empresária e, em seguida, a levaram para a Delegacia da Mulher. Imagens de câmeras de segurança, obtidas pela TV Mirante, mostram os policiais chegando ao local por volta das 10h30 do dia 17 de abril, e o sargento Cerqueira entrando na residência. Em áudios, Carolina Sthela descreve a abordagem policial, afirmando ter recebido orientações de um dos agentes para não confessar as agressões. “Entra aí. Eu entrei aqui em casa e ele: ‘tu não pode dizer que tu bateu, tu não pode confessar, tu é doida?’”, teria dito o sargento. A Secretaria de Estado da Segurança Pública do Maranhão confirmou a abertura de investigação para apurar a conduta dos agentes, reforçando que a responsabilização será de acordo com a atuação de cada um e o poder de decisão em apresentar a real situação da ocorrência.

Defesa alega transtornos mentais e prisões

O advogado de Carolina Sthela, Otoniel D’Oliveira Chagas, em entrevista à TV Mirante, alegou que a empresária pode ter transtornos mentais, como borderline ou dupla personalidade. Essa alegação deve ser utilizada como estratégia de defesa, especialmente após laudos do Instituto de Criminalística da Polícia Civil confirmarem a autenticidade dos áudios com as confissões de agressão. A polícia aguarda, ainda, o resultado da perícia em um equipamento de DVR apreendido na residência da empresária, que pode conter imagens das câmeras internas e fornecer provas visuais das agressões. O policial Yuri, por sua vez, disse que só soube do caso após ser chamado pelo cunhado de Carolina e não estava no local das agressões, mas na mesma rua. Carolina Sthela está atualmente presa no Complexo Penitenciário de Pedrinhas, em São Luís. O policial militar Michael Bruno Lopes Santos, acusado de participação nas agressões, encontra-se detido no Comando Geral da Polícia Militar. As acusações contra Carolina Sthela incluem: tentativa de homicídio triplamente qualificado (motivo torpe, meio cruel e impossibilidade de defesa da vítima), tortura, cárcere privado, injúria, calúnia e difamação. Ela também afirmou à Polícia Civil que o anel citado estava avaliado em R$ 5 mil e que ela mesma está grávida de três meses e tem problemas de saúde.

Gostou desta notícia?

Entre no nosso grupo do WhatsApp!

Receba as principais notícias em primeira mão, direto no seu celular. É grátis!

📲 Quero entrar no grupo

Compartilhe esta matéria

Comentários (0)

Seja o primeiro a comentar!

Deixe seu comentário