JUROS EM ALTA

Selic alta pressiona juros do rotativo a níveis recordes, alerta conselheira do Corecon-SP

Retrato de Carla Beni, conselheira do Corecon-SP, em análise econômica.
Carla Beni, conselheira do Corecon-SP, analisa o cenário econômico e os altos juros no Brasil. Foto: Arquivo CNN Brasil.

A taxa de inadimplência no Brasil alcançou 4,7% em maio, o maior índice desde 2011. Especialistas temem impacto social pela combinação de juros elevados e endividamento.

O Brasil enfrenta uma taxa de inadimplência recorde, atingindo 4,7% em maio, o maior patamar desde o início da série histórica em 2011. O cenário preocupa especialistas, que atribuem esse resultado a uma combinação perigosa de juros elevados, endividamento crescente e o avanço das casas de apostas.

Em análise para a CNN Money nesta domingo, 05/07/2026, Carla Beni, conselheira do Corecon-SP (Conselho Regional de Economia do Estado de São Paulo), destacou que a taxa Selic, principal instrumento de controle de inflação, permanece em dois dígitos desde fevereiro de 2022. Essa política monetária apertada impacta diretamente o bolso do consumidor.

A alta da Selic pressiona os juros do crédito rotativo do cartão de crédito, modalidade com acesso facilitado e conhecida por sua periculosidade. Atualmente, essa taxa pode chegar a impressionantes 436% ao ano, representando um dos maiores custos para quem recorre a essa linha de crédito.

Apesar da inadimplência alarmante, o mercado de trabalho demonstra resiliência. Segundo dados do Caged, o salário médio inicial para trabalhadores com carteira assinada gira em torno de R$ 2,4 mil. Carla Beni pondera, no entanto, que o ritmo de crescimento dessa massa salarial tem diminuído.

A conselheira alertou para o risco de um colapso social caso a inadimplência recorde viesse acompanhada de uma retração significativa no emprego. "Você já imaginou se a gente tivesse esse processo de inadimplência todo com uma queda maior ainda nos postos de trabalho?", questionou, ressaltando a importância da manutenção dos empregos para a estabilidade econômica.

Carla Beni também trouxe à tona a questão histórica dos limites de juros no Brasil. Ela lembrou que a Constituição de 1988 estabelecia um teto de 12% reais ao ano para o sistema financeiro. Contudo, esse limite foi extinto em 2003, após forte pressão do setor financeiro, que iniciou seu lobby em 1999.

"O céu é o limite", resumiu a conselheira, referindo-se à ausência de um teto legal explícito para a cobrança de juros. Atualmente, embora exista uma regra que impede a dívida de dobrar de valor — proibindo a cobrança superior a 100% do valor original —, os juros do rotativo alcançam patamares considerados abusivos, enquadrados no chamado "livre mercado".

"Nós deveríamos pensar em colocar um limite para essa cobrança de juros", defendeu veementemente a conselheira, apelando por uma regulamentação que proteja o consumidor contra a exploração financeira. A decisão final sobre a regulamentação ainda não foi tomada e cabe ao Congresso Nacional e órgãos reguladores deliberar sobre o tema.

Sobre programas de renegociação de dívidas, Carla Beni avaliou o Desenrola 1.0 como tendo uma adesão abaixo do esperado, atribuindo isso a dificuldades de uso do aplicativo e à exigência de um curso de educação financeira. Já o Desenrola 2.0, que permite negociação direta com as instituições financeiras, tem apresentado maior aceitação.

"A adesão do primeiro foi menor do que se esperava e essa do segundo está tendo uma adesão maior agora", constatou. O programa inicial, com duração de 90 dias, não tem previsão de prorrogação até o momento.

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