AMEAÇA TARIFFÁRIA DOS EUA
RN busca novos mercados diante de ameaça tarifária dos EUA
Diante da possibilidade de produtos brasileiros enfrentarem taxas de até 37,5% nos Estados Unidos, o Rio Grande do Norte intensifica busca por novos compradores internacionais, com foco na Europa e China.
O Rio Grande do Norte busca ativamente reduzir sua dependência do mercado americano em face de uma nova ameaça tarifária imposta pelos Estados Unidos. A perspectiva de produtos brasileiros serem submetidos a taxas de até 37,5% acendeu um alerta em setores estratégicos da economia potiguar, como a pesca e o sal, que já sentiram os efeitos de medidas comerciais semelhantes no passado e têm uma dependência significativa das exportações para os EUA.
A preocupação se intensificou com as novas pressões americanas sobre exportações brasileiras. Uma proposta de tarifa de 25% foi apresentada, somada a uma sobretaxa adicional de até 12,5%, justificada por acusações de uso de trabalho forçado em cadeias produtivas contra mais de 60 países. Essa combinação pode elevar a carga tributária para até 37,5% em parte das exportações para o mercado americano.

No Rio Grande do Norte, o Governo do Estado e representantes dos setores produtivos analisam a situação com cautela. O secretário estadual de Agricultura, Pecuária e Pesca, Guilherme Saldanha, expressou preocupação, mas manifestou ceticismo quanto a uma taxação ampla sobre alimentos. Ele argumenta que os Estados Unidos já lidam com inflação alimentar, e impor tarifas sobre um fornecedor importante poderia agravar o custo para o consumidor americano.
A avaliação de Saldanha também considera o contexto político americano, associando a ofensiva tarifária ao governo Donald Trump e prevendo um possível efeito negativo interno em ano eleitoral. "Ele atravessa hoje um problema de aprovação do seu governo, e esse negócio é eleição. Eleição de meio de mandato", declarou.
Apesar do otimismo, a atenção à ameaça é fundamental. Taxações anteriores impactaram diretamente setores potiguares, como a pesca, especialmente a produção de atum, que tem os Estados Unidos como destino principal, absorvendo cerca de 90% das exportações brasileiras para o consumo de sushi e sashimi. "O Rio Grande do Norte sofreu muito, muito mesmo, com duas atividades, principalmente o pescado", lamentou o secretário.
Dados do Observatório da Indústria Mais RN, da Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande do Norte (Fiern), indicam que o Estado exportou US$ 67,1 milhões para os Estados Unidos no primeiro semestre de 2025, um aumento expressivo de 120% em relação ao mesmo período de 2024. Pescados e sal potiguar já apresentavam forte presença no mercado americano.
O setor pesqueiro estima um impacto de cerca de US$ 50 milhões anuais em caso de novas barreiras comerciais. O sal, outro produto vulnerável, também tem o mercado americano como destino relevante para a indústria salineira potiguar.
Durante entrevista concedida nesta segunda-feira, 8 de junho de 2026, ao programa Contraponto, da 96 FM, Saldanha defendeu a busca por alternativas e ressaltou a necessidade de o Rio Grande do Norte acelerar a diversificação de mercados. Ele destacou a capacidade do agronegócio brasileiro de abastecer globalmente, citando proteína animal, milho e soja como exemplos de atendimento à demanda internacional por segurança alimentar.
Uma das estratégias mais promissoras para o Rio Grande do Norte é a tentativa de reabrir o mercado europeu ao pescado brasileiro. A União Europeia suspendeu as compras há quase uma década por questões sanitárias e de rastreabilidade, mas uma nova auditoria europeia em embarcações e unidades industriais brasileiras gera expectativa de retomada das exportações. Esse tema foi discutido em reunião recente com a governadora Fátima Bezerra e o ministro da Agricultura, André de Paula.
A auditoria, que envolve a União Europeia enviando técnicos e adidos comerciais, é vista pelo setor como crucial para reabrir um mercado que já foi expressivo para pescado e camarão. A expectativa é que a reabertura europeia ofereça uma nova via de escoamento para produtos que hoje dependem fortemente dos Estados Unidos. "A gente tem uma perspectiva muito boa, reabrindo esse mercado europeu que está parado há muito tempo, se gera uma perspectiva nova, inclusive para o atum, que tem sofrido", afirmou o secretário.
A China também surge como alternativa para expandir exportações, especialmente na fruticultura. Apesar da busca chinesa por soberania alimentar, a enorme população do país asiático (aproximadamente 1,3 bilhão de habitantes) mantém uma dependência considerável de importações. A melhora da renda e da qualidade de vida na China tem impulsionado o consumo de frutas e outros alimentos importados.
O melão potiguar é um exemplo de oportunidade, embora ainda limitado pela logística. Mesmo com uma produção menor que a chinesa, a demanda interna asiática por frutas é alta. O mercado foi aberto ao produto brasileiro, mas a falta de escala logística impede embarques regulares de grande volume. A solução apontada é a composição de cargas com outros produtos, como uva do Vale do São Francisco e limão de São Paulo, para viabilizar o transporte marítimo direto.
A busca por novos compradores também é impulsionada por iniciativas institucionais. Eventos como a Expofruit, em Mossoró, têm trazido compradores internacionais para conhecer produtos potiguares, já resultando em exportações pontuais, como a de açaí para o Kuwait. O governo estadual também atuou na força-tarefa durante o tarifaço anterior, buscando formas de apoio aos setores afetados e utilizando a interlocução da governadora com o presidente Lula para garantir que o Rio Grande do Norte fosse ouvido nas negociações.
A competitividade do Estado também está atrelada à infraestrutura. A necessidade de um novo porto no Rio Grande do Norte é destacada, visto que o Porto de Natal possui limitações operacionais e logísticas. O projeto do Porto-Indústria Verde, em Caiçara do Norte, é visto como um empreendimento capaz de impulsionar a economia estadual, com potencial para apoiar a cadeia de energias renováveis e exportações. Um porto mais eficiente poderia reduzir significativamente os custos de frete, tornando os produtos potiguares mais competitivos.
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