INFRAESTRUTURA CRÍTICA

QEdu revela: 83% das creches públicas do Brasil sem estrutura básica

QEdu revela: 83% das creches públicas do Brasil sem estrutura básica

Censo Escolar 2025 aponta que menos de 2 em cada 10 unidades possuem itens essenciais, como água e biblioteca, afetando milhões de crianças.

Apenas 17% das creches e pré-escolas públicas brasileiras possuem a infraestrutura básica completa, revelam os dados do Censo Escolar 2025, disponibilizados nesta quarta-feira, 29 de abril de 2026, pelo portal de dados educacionais QEdu. O levantamento, que agora integra a educação infantil em sua plataforma, expõe um cenário alarmante que afeta diretamente o desenvolvimento e a dignidade de milhões de crianças, em desacordo com a lei sancionada em março deste ano que define os 11 itens essenciais para o funcionamento adequado.

Para ser considerada com infraestrutura básica completa, uma unidade deve dispor de prédio escolar, energia de rede pública, água da rede pública, banheiro, rede de esgoto, cozinha, alimentação para os alunos, coleta de lixo, acessibilidade, internet e biblioteca e/ou sala de leitura. No entanto, a realidade é distante do ideal.

O detalhamento dos dados é preocupante: 64% das instituições ainda não contam com bibliotecas ou salas de leitura, privando as crianças de um ambiente crucial para o estímulo à leitura e ao desenvolvimento cognitivo. Além disso, 33% não usam água da rede pública e 4% não contam com rede de esgoto, comprometendo a saúde e a higiene, pilares fundamentais para o bem-estar infantil. Na outra ponta, a alimentação é o único item atendido em todas as escolas de educação infantil no Brasil.

A análise se estende a elementos de infraestrutura específicos para a educação infantil, como banheiro infantil, jogos e brinquedos pedagógicos, materiais artísticos, parque infantil e área verde. Considerando esses itens, apenas 12% das unidades públicas de educação infantil do país conseguem assegurá-los todos. A carência de parques infantis (presente em apenas 45%) e áreas verdes (36%) limita o espaço para o brincar livre e o desenvolvimento motor, essenciais nesta fase da vida. Os jogos e brinquedos pedagógicos, importantes para as atividades educacionais, estão presentes em 83% das unidades.

Os dados foram divulgados nesta quarta-feira, 29 de abril de 2026, quando a plataforma QEdu passa a contar com informações referentes à educação infantil. É possível consultar dados dessa etapa de ensino em nível nacional, por unidades da Federação e municípios, e fazer comparações, conforme explicou Ernesto Martins Faria, diretor-executivo do Interdisciplinaridade e Evidências no Debate Educacional (Iede) e cocriador do QEdu. “Educação infantil precisa estar no centro, a gente precisa falar mais sobre o que é educação infantil de qualidade”, destacou Faria.

A inserção desses dados no portal QEdu é fruto de uma iniciativa conjunta do Iede, Fundação Bracell, Fundação Itaú, Fundação VélezReyes+, Fundação Van Leer e Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). Parte da iniciativa também é a criação do indicador de atendimento em nível municipal, que revela um impacto social profundo: em 16% dos municípios, ou seja, em 876 cidades brasileiras, pelo menos uma em cada dez crianças de 4 e 5 anos não frequentam creches ou pré-escolas, perdendo a oportunidade de socialização e aprendizado precoce que moldam o futuro.

Procurado, o Ministério da Educação (MEC) informou, em nota, que vem “intensificando as ações para apoiar os municípios, responsáveis diretos pela educação infantil, na ampliação do acesso com qualidade a essa etapa do ensino”. A pasta cita como um dos principais instrumentos o Compromisso Nacional pela Qualidade e Equidade na Educação Infantil, que reúne mais de 2,5 mil entes federados.

“O objetivo é unir esforços em torno da expansão de vagas, da permanência de bebês e crianças nas creches e pré-escolas e da implementação de parâmetros nacionais de qualidade, sempre considerando as diferentes realidades territoriais e sociais do país”, afirmou o MEC. A pasta destacou ainda que, por meio do Novo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), 886 unidades de educação infantil foram entregues e estão previstas 1.684 novas creches e escolas. Outras prioridades são a retomada e a conclusão de obras paralisadas: das 1.318 unidades que manifestaram interesse, 904 foram aprovadas e 278 foram concluídas.

“Esses dados demonstram uma mudança de prioridade na gestão, com a ampliação dos investimentos recentes para dar mais condições aos municípios de abrir vagas, garantindo o atendimento pleno e atuando de forma proativa para superar as lacunas ainda existentes na educação infantil brasileira”, acrescentou o Ministério.

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