COMBATE AO DESPERDÍCIO
Projetos inovadores combatem desperdício de alimentos e promovem dignidade
Iniciativas diversificadas transformam sobras em alimento para quem precisa, adubo para a terra e reduzem o impacto ambiental.
Inúmeras iniciativas dedicadas a combater o desperdício de alimentos foram anunciadas e desenvolvidas, com o objetivo de mitigar os efeitos nocivos na economia, no meio ambiente e, principalmente, na dignidade das pessoas. Ao longo de 2026, a preocupação com a perda de alimentos ganhou força, impulsionando a criação e a expansão de projetos que buscam dar um destino mais nobre e sustentável às sobras alimentares, combatendo a fome e a poluição.
Globalmente, cerca de 1 bilhão de toneladas de alimentos são descartadas anualmente, conforme dados do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma). Essa perda ocorre em todas as etapas, desde a lavoura, onde falhas de planejamento podem comprometer colheitas inteiras, até o varejo, onde produtos que não se adequam a padrões estéticos são frequentemente descartados. Um pimentão com manchas, por exemplo, pode acabar no lixo antes de chegar à mesa do consumidor.
Para reverter esse cenário, novas abordagens ganham destaque. Algumas foca na doação de alimentos que seriam descartados para populações em situação de vulnerabilidade, garantindo o acesso à nutrição. Outras visam otimizar o manejo agrícola, auxiliando produtores a prolongar a vida útil de suas colheitas. E há ainda aquelas que transformam resíduos orgânicos em adubo por meio de compostagem, fechando um ciclo de reaproveitamento e evitando a contaminação do solo e a emissão de gases de efeito estufa.
Combate ao desperdício e à fome no Brasil
No Brasil, a questão do desperdício se agrava diante de um contexto social desafiador. O país enfrenta a fome, com quase 7 milhões de pessoas sem ter o que comer, e a insegurança alimentar afeta 18,9 milhões de famílias, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Muitas dessas famílias têm acesso limitado a alimentos frescos e nutritivos.
Os bancos de alimentos surgem como uma solução crucial, recebendo excedentes da produção e sobras do varejo para redistribuí-los a quem mais necessita. Desde 2023, o Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome investiu R$ 25 milhões na modernização dessas estruturas. Esses bancos, que podem ser criados por iniciativa privada ou pública, são regulamentados pelo governo federal, como explica Patrícia Chaves Gentil, diretora do Departamento de Promoção da Alimentação Adequada e Saudável. Eles desempenham um papel vital no suporte a programas como o Programa Nacional de Alimentação Escolar (Pnae) e a cozinhas solidárias.
Apesar da importância, apenas cerca de 1% das pessoas em situação de insegurança alimentar recebem alimentos por meio desses programas de redistribuição, conforme dados do Pacto Contra a Fome. “Isso não resolve a fome, mas é uma ferramenta muito importante de alívio emergencial de uma crise que nós vivemos todos os dias, de as pessoas não terem o que comer”, afirma Maria Siqueira, cofundadora e diretora-executiva do Pacto Contra a Fome.
A reportagem do g1 acompanhou o trabalho de instituições como o Instituto de Solidariedade para Programas de Alimentação (ISA), em Campinas (SP), e o Sesc Mesa Brasil, o maior banco de alimentos privado da América Latina. Ambos realizam parcerias com comerciantes, feiras e supermercados, coletando produtos que ainda estão em condições de consumo. Após uma triagem rigorosa para garantir a qualidade, os alimentos são distribuídos a ONGs parceiras. O ISA, localizado na Ceasa de Campinas, ainda destina alimentos impróprios para consumo humano, mas próprios para animais, a pequenas propriedades rurais. O Sesc Mesa Brasil estende sua atuação por todo o país.
Os resíduos orgânicos que não servem para consumo ou alimentação animal são encaminhados para a Usina Verde de Campinas, onde são transformados em adubo, fechando um ciclo sustentável.
Minimizando perdas da lavoura ao comércio
As perdas na cadeia produtiva, desde a lavoura até o comércio, geram não apenas desperdício de alimentos, mas também prejuízos financeiros significativos para os produtores. Técnicas de manejo adequadas são essenciais para evitar essas perdas. Na Alfacitrus, em Santa Maria da Serra (SP), o produtor Emílio Cesar Favero adota a colheita manual com monitoramento criterioso para garantir que as frutas sejam retiradas no momento ideal, prevenindo estragos no pé e danos durante o manuseio. O transporte é feito em caixas plásticas, que reduzem o risco de contaminação em comparação com as de madeira.
Na indústria, a estratégia é maximizar o aproveitamento. Frutas que atendem aos padrões estéticos são higienizadas e recebem uma camada de cera para aumentar sua durabilidade. Aquelas com imperfeições, mas em bom estado de consumo, são destinadas à produção de sucos. As frutas deterioradas seguem para compostagem e retornam à lavoura como adubo. Essa triagem é otimizada com análises humanas e sistemas de inteligência artificial que avaliam as condições de cada fruta.
Apesar dos avanços, pragas, doenças e eventos climáticos extremos, como geadas e secas, ainda representam desafios constantes para os produtores, exigindo manejo contínuo e atenção às surpresas da natureza.
Reciclagem de alimentos e o futuro da sustentabilidade
O descarte inadequado de alimentos em aterros sanitários contribui significativamente para a poluição ambiental, gerando gases de efeito estufa, como o metano, e produzindo chorume, que contamina o lençol freático. Estima-se que alimentos descartados sejam responsáveis por 8% a 10% das emissões globais de gases de efeito estufa, segundo o Pnuma. A compostagem surge como uma solução eficaz, transformando esses resíduos em fertilizantes para hortas urbanas, canteiros e parques, reduzindo custos de manutenção e promovendo um ciclo virtuoso.
Em 2025, foi lançada a Estratégia Intersetorial para Redução de Perdas e Desperdício de Alimentos, por meio da Resolução da Câmara Interministerial de Segurança Alimentar e Nutricional (Caisan). Essa iniciativa, que conta com a colaboração de instituições científicas como a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), encontra-se em fase de formulação e promete avançar ainda mais na solução desse complexo problema.
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