RISCO SÍSMICO NO BRASIL
Por que o Nordeste do Brasil é mais propenso a terremotos que outras regiões
Cientistas explicam que a crosta terrestre mais fina e a existência de falhas geológicas antigas na Província Borborema favorecem abalos sísmicos, como o ocorrido há 40 anos em João Câmara.
A região Nordeste do Brasil apresenta uma propensão maior a abalos sísmicos em comparação com outras partes do país. Essa particularidade geológica, explicada por especialistas, decorre da espessura reduzida da crosta terrestre sob boa parte dos Estados nordestinos, especialmente na chamada Província Borborema. Um estudo, iniciado no final de 2009, que envolveu explosões controladas e medições de ondas sísmicas, confirmou que a crosta na área varia entre 30 e 35 quilômetros de espessura, consideravelmente mais fina que a média mundial de 40 quilômetros. Acredita-se que esse adelgaçamento tenha ocorrido no período Cretáceo, há mais de 136 milhões de anos, durante a separação dos continentes africano e sul-americano, um processo que, segundo cientistas como o engenheiro Marcelo Bianco e o geofísico Aderson Farias do Nascimento, causou um estiramento e enfraquecimento da crosta na região.
Essa estrutura geológica mais fina, aliada à presença de inúmeras falhas geológicas antigas, cria um ambiente propício para a acumulação e liberação de energia sísmica. Geólogos comparam a Terra a um quebra-cabeça de placas tectônicas em constante movimento, cujas interações geram tensões. Enquanto o Brasil, em sua maior parte, se localiza no centro da placa Sul-Americana, o Nordeste possui um terreno geologicamente mais antigo e heterogêneo, com rochas metamórficas e falhas preexistentes que facilitam a propagação de ondas sísmicas. Essa combinação de fatores faz com que a Província Borborema seja classificada como área de risco moderado a alto para sismos, segundo o Global Seismic Hazard Assessment Program (GSHAP).

Um marco na compreensão desses fenômenos foi o terremoto de magnitude 5,1 que atingiu João Câmara, no Rio Grande do Norte, em novembro de 1986. O abalo, que causou pânico e destruiu ou danificou cerca de 4 mil casas, deixando 10 mil desabrigados, foi um alerta sobre a vulnerabilidade sísmica da região. A maior falha geológica do Brasil, a de Samambaia, localizada no Rio Grande do Norte, é um exemplo da complexidade tectônica local. A energia sísmica acumulada em milhões de anos, proveniente das tensões intraplaca, pode ser liberada através da reativação dessas falhas antigas, causando tremores mesmo em áreas afastadas das bordas das grandes placas tectônicas.
A diversidade de materiais rochosos na Província Borborema, segundo pesquisadores, também contribui para a instabilidade, pois a falta de homogeneidade dificulta a acomodação natural das tensões geológicas. Essas características geológicas únicas do Nordeste brasileiro, herdadas de processos tectônicos ancestrais, configuram um cenário onde a atividade sísmica, embora menos frequente que em zonas de encontro de placas, representa um risco real e persistente para a população.
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