FRAUDE MILIONÁRIA

Polícia de Roraima prende influenciadores por golpe do tigrinho de R$ 260 milhões

Adrielly Vivianny Araújo de Jesus, influenciadora digital, presa em Boa Vista.
Influenciadora Adrielly Vivianny Araújo de Jesus foi presa em Boa Vista — Foto: Reprodução/Instagram

Operação Mantus desvenda esquema complexo de "jogo do tigrinho" que movimentou fortuna, impactando vítimas com perdas financeiras e psicológicas em Roraima e Goiás.

A Polícia Civil de Roraima desmantelou um esquema milionário de crimes contra o consumidor e lavagem de dinheiro, focado na divulgação enganosa do "jogo do tigrinho". Na segunda-feira, 27 de abril de 2026, a Operação Mantus resultou na prisão de oito pessoas, incluindo sete influenciadores digitais, e no cumprimento de 11 mandados de busca e apreensão, sequestro de bens e bloqueio de valores. A decisão, respaldada por mandados judiciais expedidos pela juíza Daniela Schirato, após manifestação favorável do Ministério Público de Roraima (MPRR), visa proteger a população dos danos causados por promessas de lucro fácil que arruínam a vida de cidadãos, evidenciando o impacto devastador da fraude e lavagem de dinheiro na dignidade individual e coletiva. A influenciadora digital Adrielly Vivianny Araújo de Jesus, principal alvo da operação, movimentou mais de R$ 144 milhões entre 2023 e 2024 por meio da promoção do "jogo do tigrinho" em Roraima. Ela foi uma das oito pessoas presas pela Polícia Civil em Boa Vista e Goiás. Adrielly Vivianny, que soma 189,8 mil seguidores em suas contas no Instagram – dedicadas a um perfil principal, uma loja de roupas fitness e uma página específica para divulgar jogos de azar – prometia lucros fáceis para atrair seguidores, enquanto a investigação aponta para um método de enganar vítimas com a "falsa facilidade" de ganhar dinheiro, exibindo versões de teste do jogo programadas para sempre vencer.

Esquema articulado e lavagem de dinheiro

Adrielly integrava uma rede complexa composta por ao menos nove influenciadores, dois empresários — entre eles seu marido, Dione dos Santos da Silva — e uma esteticista em Roraima. Esse grupo orquestrava a ampliação do alcance das plataformas de jogos, frequentando os mesmos eventos sociais e viagens de luxo para validar um estilo de vida ostensivo e, assim, atrair mais vítimas. Eles utilizavam aplicativos de mensagens e assessores para disseminar links de apostas em massa. Chama atenção o fato de que, apesar de exibir uma rotina de luxo na internet, Adrielly estava inscrita em programas sociais do governo federal e recebia o Bolsa Família. Em 2023, ela declarou à Receita Federal renda de apenas R$ 84 mil, enquanto no ano seguinte, o volume movimentado em suas contas bancárias saltou para mais de R$ 140 milhões. A polícia rastreou mais de R$ 61 milhões enviados por empresas intermediadoras de pagamentos de jogos de azar, muitas das quais acumulam "milhares de reclamações em portais de defesa do consumidor vinculadas a fraudes". O inquérito policial classifica essa evolução de riqueza como "totalmente incompatível com sua renda declarada e atividade comercial lícita", destacando um "crescimento exponencial e abrupto na ordem de 40 vezes no volume financeiro em apenas um ano". Seu marido, Dione dos Santos da Silva, também movimentou quase R$ 40 milhões no mesmo período, apesar de sua baixa renda declarada. O casal utilizava esses recursos para adquirir terrenos de até R$ 400 mil, construir imóveis e comprar veículos de luxo, consolidando um forte esquema de lavagem de dinheiro.

Impacto devastador nas vítimas

O caso teve início a partir de uma denúncia anônima, onde uma vítima relatou a perda de R$ 18 mil em sites indicados por Adrielly e outros influenciadores. O impacto foi tão severo que o prejuízo financeiro e emocional exigiu tratamento psiquiátrico para a pessoa lesada, evidenciando as consequências graves dessas fraudes na vida de quem cai no golpe. Diante das denúncias, a Polícia Civil solicitou a prisão temporária da influenciadora e de seu marido, o bloqueio das contas bancárias, o sequestro dos bens e a suspensão dos perfis de Adrielly na internet, medidas ainda não definitivas, mas cruciais para a investigação.

Detalhes da Operação Mantus

A Operação Mantus, deflagrada na segunda-feira, 27 de abril de 2026, pela Polícia Civil de Roraima, apura uma movimentação total de R$ 260 milhões em dois anos. Além dos oito presos, a ação mirou empresários e uma esteticista. Foram cumpridos 11 mandados de busca e apreensão, sequestro de bens móveis e imóveis e bloqueio de valores que podem chegar a R$ 68 milhões nas contas bancárias dos investigados. Entre os influenciadores presos estão:
  • Raniely Silva Carvalho, conhecida como Raniely Carvalho;
  • Gildázio Cardoso, de 25 anos, conhecido como Mulherzona (preso em Goiás);
  • Laís Ramos Gomes da Silva, conhecida como Laís Ramos;
  • Patrik Adhan dos Santos Ribeiro, de 27 anos, conhecido como Patrik Adhan;
  • Amanda Lourenço Faria, de 28 anos, conhecida como Amanda Faria;
  • Adrielly Vivianny Araújo de Jesus, de 29 anos, conhecida como Adrielly Araújo;
  • Dione dos Santos da Silva, de 37 anos, marido de Adrielly;
  • Vitória Reis da Silva, de 26 anos.
O delegado Eduardo Patrício, da Delegacia Especial de Repressão aos Crimes Cibernéticos, explicou que a operação é fruto de uma investigação iniciada em setembro de 2024, que revelou um "esquema estruturado, com forte atuação nas redes sociais". Ele enfatizou que os investigados usavam a visibilidade digital para divulgar plataformas do "jogo do tigrinho", atraindo pessoas com promessas enganosas de ganhos fáceis. "As investigações demonstraram que havia uma atuação organizada, com uso estratégico das redes sociais para alcançar um grande número de vítimas. Trata-se de uma prática criminosa com elevado potencial de dano coletivo", destacou o delegado. Os mandados foram expedidos pela juíza Daniela Schirato, titular da Vara de Entorpecentes e Organizações Criminosas, após manifestação favorável do Ministério Público de Roraima (MPRR). Também foram alvos de busca e apreensão Victoria Paixão Barros (influencer), Juliana Lima do Nascimento (esteticista), Ruissian Ferreira Braga Ribeiro (empresário) e sua empresa, Ruissian Comércio de Veículos LTDA.

As defesas

Em nota, a defesa de Raniely Carvalho afirmou que ela é inocente e "nega veementemente qualquer envolvimento em práticas de lavagem de dinheiro, golpes financeiros ou estelionato", colocando-se à disposição das autoridades. Os advogados de Vitória Reis da Silva buscam "acesso aos autos e alega cerceamento de defesa", prometendo manifestação após conhecer o teor da decisão judicial. A defesa de Patrik Adhan assegurou que o cliente está tranquilo e os fatos serão esclarecidos em momento oportuno, aguardando acesso ao processo, que corre sob sigilo.

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