AGRONEGÓCIO EM FOCO

Plano Safra mais que dobra em seis safras e supera inflação, mas crédito encarece

Gráfico comparando o volume do Plano Safra com a inflação e o PIB ao longo dos anos.
O volume de recursos do Plano Safra cresceu significativamente, mas o custo do crédito para o produtor é um desafio.

Volume de recursos saltou de R$ 236,3 bilhões para R$ 594,4 bilhões entre os ciclos 2020/21 e 2025/26, superando a inflação acumulada. Especialista alerta, porém, que crédito tem ficado mais caro e acessível.

A evolução do Plano Safra, a principal política de financiamento do agronegócio brasileiro, espelha a transformação da economia do País nos últimos seis anos. Entre o ciclo 2020/21 e o atual Plano Safra 2025/26, o volume de recursos destinados saltou de R$ 236,3 bilhões para R$ 594,4 bilhões, um aumento de 151%. Este crescimento expressivo superou o choque inflacionário do pós-pandemia e o aperto monetário promovido pelo Banco Central, com a taxa Selic atingindo dois dígitos. Em declaração feita nesta terça-feira, 30/06/2026, Wolney Arruda, CEO da Plantae Agrocrédito, avalia que o plano cresceu mais que a inflação, mas seu fôlego diminuiu.

Os dados revelam que, enquanto o volume de recursos se consolidava, a inflação acumulada em junho oscilou ao longo dos ciclos. O período de 2022/23, apesar de uma safra recorde, registrou um IPCA de dois dígitos, impactando as projeções econômicas.

No ciclo mais recente, o Plano Safra registrou R$ 516,2 bilhões, um aumento de apenas 1,5% sobre a temporada anterior — um avanço abaixo da inflação, indicando uma estagnação no poder de compra real do plano, segundo Arruda. A alta taxa Selic, mesmo em queda, continua a encarecer o crédito, um fator crucial para o agronegócio.

A análise também aponta para uma diminuição no volume de recursos com juros mais baixos controlados pelo governo. Isso tem levado a uma maior dependência do financiamento privado, como as Letras de Crédito do Agronegócio (LCAs) e a Cédula de Produto Rural (CPR), impulsionando a participação do mercado de capitais. A União tem reduzido sua participação como financiador principal, dando lugar a instrumentos de mercado e a garantias estatais, como fundos garantidores.

A maior parte dos recursos, mais de dois terços, continua direcionada ao custeio e comercialização da produção, enquanto investimentos em infraestrutura como máquinas, armazenagem e irrigação representam entre 20% e 30% do total. A preocupação reside na acessibilidade e custo do crédito para o produtor, especialmente os de menor porte, que podem ficar de fora das operações concentradas. A dinâmica do Plano Safra caminha para se tornar um programa de gestão de risco, com o Estado garantindo operações em vez de subsidiar diretamente os juros.

O Plano Safra, que em 2020 equivalia a cerca de 3% do PIB, hoje representa aproximadamente 5%. O crescimento nominal do plano (151%) superou o do PIB nominal (65%) no período de 2020/21 a 2025/26. Esse aumento reflete não apenas a expansão do agronegócio, mas também a inflação dos custos agrícolas, o aumento do preço das commodities, o crescimento da produção e exportações, a necessidade de capital de giro e os juros elevados, além da participação crescente de recursos privados.

Às vésperas do anúncio do próximo Plano Safra, o desafio central é conciliar a demanda crescente por crédito com juros elevados e restrições orçamentárias, garantindo a competitividade do setor sem aumentar o custo fiscal. As atenções do mercado se voltam para o custo do crédito para o produtor, o espaço para subsídios da União e a contínua migração do financiamento para o mercado privado.

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