MEMÓRIA VIVA

Pensão da Esperança: O coração político de Macaíba nos anos 60

Nos anos 60, a lendária Pensão da Esperança e Graziela Mesquita foram baluartes do movimento aluizista, ecoando até hoje na história do Rio Grande do Norte.

A primavera política que floresceu no Rio Grande do Norte no início dos anos sessenta encontrou um de seus corações pulsantes na província de Macaíba, onde a Pensão da Esperança, comandada pela inesquecível Graziela Mesquita, emergiu como um farol de mobilização. Esta pousada singular, que nasceu no calor das disputas eleitorais da época, não foi apenas um refúgio, mas a própria nau catarineta do movimento aluizista, um espaço que moldou destinos e deixou uma marca indelével na política local.

Naqueles tempos vibrantes, Graziela Mesquita, figura de proa e prima do autor, navegava as águas turbulentas da política macaibense com a destreza de uma capitã de longo curso. Mesmo sendo uma 'bacurau de cinco estrelas' e dissidente de sua família, ela transformou o local, situado à rua de Nossa Senhora da Conceição, em um verdadeiro Porto Seguro para as caravanas e manifestações, onde apenas os fiéis à causa eram bem-vindos. Solteirona invicta, mas com a imponência de uma matrona romana, Graziela era uma força da natureza: elétrica, vibrante e fanática, conquistando a simpatia de todos os que abraçavam a luta política. Sua presença marcante, com o andar peculiar e o 'imenso busto-arbusto', refletia a grandiosidade de seu espírito. Apesar de uma relação política inicialmente desafiadora com o autor, o respeito mútuo os uniu como correligionários até o fim da vida dela.

Mais do que um simples ponto de apoio, a Pensão da Esperança funcionava como o verdadeiro termômetro político de Macaíba, refletindo o fervor das disputas. Contudo, essa visibilidade também a tornava um alvo constante das manifestações hostis do dinartismo radical. Era comum que ativistas sorrateiros orquestrassem 'atentados à bomba' para perturbar o sossego de Graziela e testar a solidez de seu prestígio. Mas a resposta era imediata: como um raio, um delegado de polícia surgia na porta para as averiguações e a prisão dos responsáveis, demonstrando a intocabilidade de Graziela e o respeito que a envolvia.

A figura de Grazi era, de fato, intocável, um patrimônio vivo e pulsante da 'cruzada da esperança'. Um aspecto notável desse movimento era a sua dedicada 'ala-moça', jovens treinadas para entoar as vibrantes canções de Aluízio Alves. Hinos como 'Cigano feiticeiro, teu feitiço, ai meu Deus, eu faço tudo, tudo pelo governo seu e o eleitor o que deve fazer? É virar cigano e votar com você' e o clássico 'Aluízio Alves veio do sertão, lá do Cabugi…' não apenas embalavam as caravanas, mas solidificavam a identidade e o fervor da campanha.

Essa é a folclórica, melódica, dramaticamente ingênua e profundamente humana página da vida política de Macaíba, que encontrou na Pensão da Esperança seu oxigênio vital. Hoje, o antigo endereço da pousada e a presença física de sua proprietária se foram, mas resta a vívida memória visual e auditiva. A reconstituição mental dos gestos, das verdes bandeiras pandas ao vento, do burburinho da multidão e da silhueta imponente de Graziela permanecem como uma saudade suspensa no ar, perpetuamente renovada a cada passo pela calçada da lembrança.

É importante ressaltar que os artigos publicados com assinatura não refletem, necessariamente, a opinião da TRIBUNA DO NORTE, sendo de responsabilidade integral do autor.

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