GOVERNO EM XEQUE
Oposição quer ouvir Mauro Vieira no Congresso sobre risco de ação militar dos EUA
Parlamentares pressionam por audiência do ministro das Relações Exteriores antes do recesso. A questão central é um ofício que aponta a possibilidade de intervenção militar dos EUA no Brasil.
Parlamentares da oposição no Congresso Nacional articulam a convocação do ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, para prestar esclarecimentos sobre um documento que sugere a possibilidade de ações militares dos Estados Unidos contra o Brasil. O pedido visa que o chanceler seja ouvido pelas comissões de Relações Exteriores do Senado e da Câmara antes do recesso legislativo, que se inicia em 18 de julho. Apesar do movimento, as comissões ainda não estabeleceram uma data para receber o ministro.
Na última terça-feira, 8 de julho de 2026, Mauro Vieira foi convidado pelo colegiado do Senado a se manifestar sobre o documento enviado à Câmara dos Deputados. O ofício menciona a possibilidade de ações militares americanas após o governo de Donald Trump classificar o PCC (Primeiro Comando da Capital) e o CV (Comando Vermelho) como organizações terroristas. O convite, contudo, não tem caráter obrigatório para a presença do ministro.
No dia seguinte, Vieira foi convocado pela Comissão de Relações Exteriores da Câmara para se pronunciar sobre o mesmo episódio. Diferentemente do convite, a convocação torna a presença do ministro compulsória.
A oposição busca viabilizar a ida de Mauro Vieira ao Congresso na próxima semana. Integrantes do grupo, no entanto, admitem que o encontro pode ser adiado para agosto, após o retorno do recesso, caso não haja compatibilidade entre a agenda do ministro e a das comissões.
A definição da data para as audiências é de responsabilidade dos presidentes de cada comissão. No Senado, a Comissão de Relações Exteriores é presidida por Nelsinho Trad (PSD-MS). Na Câmara, o colegiado é comandado pelo deputado Luiz Philippe de Orleans e Bragança (PL-SP). A oposição planeja dialogar com os parlamentares para agilizar a realização das audiências nos próximos dias.
Fontes do governo informaram à CNN que Mauro Vieira tem a intenção de comparecer às comissões nas datas que forem definidas. O chanceler já participou de audiências na Comissão de Relações Exteriores em pelo menos cinco ocasiões desde que assumiu o Itamaraty, em janeiro de 2023.
Nas audiências, os opositores pretendem questionar o ministro de forma incisiva sobre a postura do governo brasileiro diante da classificação das facções criminosas como terroristas pelos Estados Unidos e o temor de uma possível ação militar.
Segundo parlamentares da oposição, a divulgação do receio de uma invasão dos EUA ao Brasil é considerada injustificável neste momento e prejudica as relações diplomáticas com a Casa Branca.
O deputado Marcel Van Hattem (Novo-RS) foi um dos autores do requerimento de convocação na Câmara. Para ele, o ofício do Itamaraty é "vergonhoso" e inadequado para um ministro das Relações Exteriores.
"O ministro sugere que o governo é contra chamar o PCC e CV de terroristas pelo governo dos EUA porque isso poderia ensejar uma invasão militar. Isso é absurdo. Eu não consigo imaginar um ministro de Estado das Relações Exteriores lendo esse texto. Ridiculariza a posição do ministro. Ainda parece dar a entender que Lula teme uma invasão para resolver problemas que o governo não resolve", declarou Van Hattem.
Diplomatas brasileiros relataram à CNN que a menção à possibilidade de intervenção dos EUA no Brasil se baseia em operações militares recentes realizadas pelos Estados Unidos, principalmente no Caribe. Cita-se o sequestro do presidente venezuelano Nicolás Maduro e ataques a embarcações na região como exemplos.
Fontes do governo indicam que a diplomacia brasileira considera o cenário atual realista e requer responsabilidade. Além das intervenções no Caribe, a análise inclui ações militares dos EUA contra México e Irã.
Os pedidos para que Mauro Vieira compareça ao Congresso surgiram após o ministro enviar um ofício ao deputado federal Evair de Melo (PP-ES). Na comunicação, o chanceler alertou para os riscos decorrentes da classificação de PCC e CV como organizações terroristas pelos Estados Unidos, mencionando a possibilidade de ações militares americanas contra o Brasil.
No documento, o Itamaraty ressaltou que a classificação "não trará benefícios concretos para a cooperação internacional entre EUA e Brasil no enfrentamento do crime organizado". O ministério argumentou que a designação das facções como "organizações criminosas transnacionais" por Washington já permitiria a colaboração em troca de informações e outras ações de combate ao crime.
O Departamento de Estado dos EUA classificou como "absurda" a hipótese levantada pelo Itamaraty sobre ação militar americana no Brasil. O órgão declarou que facções criminosas brasileiras operam em território americano e que, por isso, os Estados Unidos têm o dever de defender seu povo.
"Alegações vagas de intervenção servem, muitas vezes, de pretexto para auxiliar e acobertar alguns dos grupos mais violentos do mundo", afirmou o órgão estadunidense.
A designação do PCC (Primeiro Comando da Capital) e do CV (Comando Vermelho) como Organizações Terroristas Estrangeiras (FTO, na sigla em inglês) pelos Estados Unidos entrou em vigor em 5 de junho de 2026. Esta foi a segunda etapa do processo, que iniciou em 28 de maio com o anúncio do Departamento de Estado americano, enquadrando as facções como "Terroristas Globais Especialmente Designados" (SDGT).
O comunicado, assinado pelo secretário de Estado Marco Rubio, enfatiza que o CV e o PCC estão entre as organizações criminosas mais violentas do Brasil e que sua atuação se estende para além das fronteiras brasileiras, alcançando o território americano.
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