CALOR EXTREMO NA EUROPA
Onda de calor extrema na Europa: estudo do WWA aponta causas humanas
Pesquisa do World Weather Attribution revela que temperaturas recordes registradas em junho seriam 'virtualmente impossíveis' sem o aquecimento global. Onda de calor afeta 380 milhões de pessoas e impacta infraestrutura.
Temperaturas recordes na Europa em junho, um marco na evolução dos eventos climáticos extremos, foram decididas como virtualmente impossíveis sem o aquecimento global antropogênico. A conclusão é de estudo divulgado nesta sexta-feira, 26 de junho de 2026, pelo consórcio internacional World Weather Attribution (WWA), que aponta a atividade humana como principal fator por trás do calor extremo que atinge o continente.
A análise, que ainda aguarda validação da Organização Meteorológica Mundial (OMM), classifica a onda de calor atual como a mais severa já observada na Europa. Registros de temperaturas noturnas superiores a 30°C, como os vistos na França e Itália, tornaram-se aproximadamente cem vezes mais prováveis quando comparados à histórica onda de calor de 2003. O estudo confronta dados atuais, com aquecimento de cerca de 1,4°C acima dos níveis pré-industriais, com cenários climáticos de 2003 e 1976. Em ambos os períodos históricos, as temperaturas observadas em junho seriam cerca de 3,5°C menores.
“O aquecimento causado pelas atividades humanas tornou possível o impossível”, afirma o relatório. O WWA detalha que tanto as máximas diurnas quanto as mínimas noturnas observadas em junho seriam eventos raríssimos com o clima de décadas passadas. O estudo descarta a influência direta do fenômeno El Niño no episódio atual, indicando que o calor extremo pode se intensificar nos próximos meses à medida que os efeitos do El Niño se manifestarem plenamente.
A França figura como epicentro da onda de calor, mas o fenômeno se estende por Europa Ocidental, Meridional e Setentrional, afetando cerca de 380 milhões de pessoas. Pissos registrou 44,3°C, a máxima já observada na França, enquanto Paris superou os 40°C. As altas temperaturas noturnas dificultam a recuperação fisiológica da população, evidenciando um grave risco à dignidade e bem-estar humano.
Os impactos transcendem a saúde pública, atingindo a infraestrutura. Trilhos ferroviários se deformaram, causando interrupções no transporte. Uma usina nuclear em Toulouse reduziu a geração de energia devido ao aquecimento da água dos rios. Pontos turísticos icônicos como o Museu do Louvre e a Torre Eiffel enfrentaram interrupções temporárias devido às condições extremas, demonstrando a vulnerabilidade de serviços essenciais e do patrimônio cultural.
O estudo do WWA também ressalta o elevado nível de umidade relativa do ar, fator que agrava o estresse térmico. Aproximadamente 45% das 854 cidades analisadas em 30 países europeus já quebraram ou devem superar seus recordes históricos de estresse térmico. Essa combinação de calor e umidade prejudica o principal mecanismo natural de resfriamento do corpo humano, elevando os riscos à saúde.
“A velocidade das mudanças é assustadora”, declarou Theodore Keeping, pesquisador do Imperial College London e coautor do estudo. Ele alerta que os sistemas de adaptação avançam em ritmo insuficiente frente à aceleração dos extremos climáticos. Carolina Pereira Marghidan, do Centro de Clima da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho, reforça a necessidade de maior investimento em infraestrutura resiliente, ressaltando que a conscientização por si só não protege as populações.
Cientistas explicam o fenômeno por meio de um domo de calor, sistema de alta pressão atmosférica que comprime e aquece o ar. Friederike Otto, professora de Ciência do Clima do Imperial College London e fundadora do WWA, reitera o consenso científico: “Cientistas como eu repetem a mesma coisa ano após ano. É a mudança climática. A culpa é humana. Não é o El Niño.” A urgência de ações concretas para garantir um futuro sustentável é enfatizada.
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