CRISE SANITÁRIA GLOBAL

OMS prevê aumento de 70% nos casos de câncer até 2050 e alerta para desigualdade no tratamento

Ilustração temática sobre a incidência de câncer e a necessidade de combate ao tabagismo.
O câncer exige ações globais urgentes contra fatores de risco e pela democratização do acesso aos tratamentos.

Relatório aponta que 92% da população mundial será impactada pela doença nas próximas décadas; disparidades no acesso aos cuidados ampliam risco de morte.

O câncer deverá impactar direta ou indiretamente 92% da população mundial nas próximas décadas, seja por meio de um diagnóstico pessoal ou pela convivência com familiares e pessoas próximas em tratamento. A Organização Mundial da Saúde (OMS) projetou um crescimento de 70% no número de novos casos da doença até 2050, conforme relatório divulgado nesta sexta-feira, 10/07/2026. A estimativa é que os diagnósticos saltem de 20,6 milhões registrados em 2024 para cerca de 35 milhões nas próximas décadas.

Segundo a entidade, aproximadamente uma em cada cinco pessoas deverá receber um diagnóstico de câncer ao longo da vida. Além do aumento da incidência, a OMS chama atenção para a desigualdade no acesso ao diagnóstico e ao tratamento, considerada um dos principais desafios para reduzir a mortalidade provocada pela doença.

No documento, o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, afirma que o câncer representa uma emergência sanitária de longo prazo. O dirigente aponta que, embora a vacinação contra o HPV e os programas de controle do tabaco tenham contribuído para reduzir tipos específicos da enfermidade, o progresso permanece distribuído de forma injusta entre os países.

As disparidades são evidenciadas pelas taxas de sobrevivência: mulheres com câncer de mama em nações de alta renda possuem chance de cura superior a 85%, índice que cai para menos de 30% em países de baixa renda. A OMS ressalta que menos de um terço dos países oferece tratamentos oncológicos dentro dos pacotes públicos de cobertura em saúde.

Além dos efeitos sobre a dignidade humana e a saúde pública, o câncer impõe um custo econômico severo. A estimativa é que, entre 2020 e 2050, o impacto da doença corresponda a aproximadamente 0,55% do Produto Interno Bruto (PIB) mundial, devido a mortes prematuras e perda de produtividade. Contudo, a organização enfatiza que investir em prevenção gera retorno, com ganho estimado de US$ 9,50 para cada dólar investido.

Para o oncologista Fernando Maluf, diretor médico associado do Centro de Oncologia da BP – A Beneficência Portuguesa de São Paulo, membro do Comitê Gestor do Centro de Oncologia do Hospital Israelita Albert Einstein e cofundador do Instituto Vencer o Câncer, o crescimento já era esperado. "O aumento da expectativa de vida e o estilo de vida, com obesidade populacional e dietas inadequadas, são os motores dessa alta", explica.

Já o oncologista clínico Thiago Jorge, coordenador do setor de tumores gastrointestinais do Centro Especializado em Oncologia do Hospital Oswaldo Cruz, reforça o desafio do pós-tratamento. Segundo ele, o aumento da sobrevida exige um acompanhamento multidisciplinar longo, especialmente para pacientes tratados com terapias tóxicas, além de medidas para garantir a reinserção social e financeira dos sobreviventes.

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